Carlos Magno contra Napoleão: construtores de impérios europeus
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Carlos Magno contra Napoleão: construtores de impérios europeus

By Historic Figures
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Mil anos separam estes dois imperadores que sonharam unir a Europa. Descobre como Carlos Magno e Napoleão construíram os seus impérios, por que não conseguiram torná-los duradouros, e o que o seu legado nos revela sobre a ideia europeia.

Carlos Magno contra Napoleão: construtores de impérios europeus

Alguns sonhos atravessam os séculos. O sonho de uma Europa unida, de um império que se estenda do Atlântico ao Vístula, dos mares do norte ao Mediterrâneo. Dois homens, separados por mil anos de história, tentaram tornar realidade este sonho: Carlos Magno (742–814) e Napoleão Bonaparte (1769–1821).

Um foi um rei franco medieval, coroado imperador pelo papa numa basílica romana. O outro foi um general corso da Revolução, que se coroou a si próprio na catedral de Notre-Dame. Ambos conquistaram a Europa, ambos sonharam transformá-la, ambos viram o seu império desmoronar-se.

E, contudo, o seu legado persiste. Quando os pais fundadores da União Europeia procuraram modelos, pensaram em Carlos Magno. Quando os juristas de todo o mundo estudam o direito civil, estudam o Código Napoleónico. Estes dois homens forjaram a Europa que conhecemos hoje.

Dois caminhos para o poder

Carlos Magno: herdeiro dos francos

Carlos — assim era o seu verdadeiro nome, «Carlos Magno» significa «Carolus Magnus» — nasceu por volta do ano 742, provavelmente em Aachen. Foi filho de Pepino, o Breve, o primeiro rei carolíngio, e neto de Carlos Martel, o herói que tinha detido a expansão árabe em Poitiers no ano 732.

Naquele tempo, ser rei não significava grande coisa. Os reis merovíngios, que precederam os carolíngios, eram «reis preguiçosos», figuras decorativas, enquanto os mordomos de palácio exerciam o poder real. Pepino mudara isso: com a bênção do papa, tinha tomado a coroa ele próprio.

Carlos herdou o reino à morte do seu pai no ano 768, mas teve de partilhá-lo com o seu irmão Carlomano. Felizmente para ele, Carlomano morreu no ano 771, e Carlos pôde unir todo o reino franco sob a sua autoridade. Tinha 29 anos e um apetite insaciável de conquista.

O que impressiona no jovem Carlos Magno é a sua energia física. Era um gigante para a sua época: a análise dos seus ossos sugere que media cerca de 1,90 metros. Caçava, nadava, cavalgava. Dirigiu pessoalmente os seus exércitos, campanha após campanha, ano após ano. Durante os seus 46 anos de reinado, quase não passou nenhum sem guerra.

Napoleão: o pequeno cabo corso

Napoleão Buonaparte nasceu em 1769 em Ajaccio, Córsega, um ano depois de a ilha passar de Génova para França. Era o segundo filho de uma família de pequena nobreza italiana. O seu pai, Carlo, tinha lutado pela independência corsa antes de se juntar a França.

Aos 9 anos, o jovem Napoleão foi enviado para estudar em França. Mal falava francês: o corso era a sua língua materna. Na escola militar de Brienne foi alvo de gozações pelo seu sotaque, pelo seu nome estranho, pela sua pobreza. Refugiou-se nos livros e devorou os relatos sobre César, Alexandre, Aníbal.

Em 1785 formou-se na escola militar de Paris, oficial de artilharia aos 16 anos. A sua carreira talvez tivesse sido modesta sem a Revolução. Mas a Revolução abalou a antiga ordem, abriu as carreiras aos talentosos. Napoleão aproveitou todas as oportunidades.

O cerco de Toulon em 1793 deu-o a conhecer. A campanha da Itália de 1796–1797 tornou-o famoso. O golpe de Estado do 18 de Brumário de 1799 tornou-o Primeiro Cônsul. A coroação de 1804 tornou-o imperador. Em dez anos, um tenente corso desconhecido tinha-se tornado senhor de França, depois da Europa.

Construir impérios

Carlos Magno: a espada e a cruz

Carlos Magno conquistou o seu império com a guerra, mas justificou-o com a religião. Cada conquista apresentava-se como uma extensão da cristandade, como uma missão divina.

As suas guerras foram numerosas e brutais. Contra os lombardos da Itália (773–774), a quem derrotou e cuja coroa se apropriou. Contra os saxões da Alemanha (772–804), a quem subjugou após 32 anos de guerra e massacres: a «sanguinária jornada de Verdun» em 782, onde mandou decapitar 4.500 prisioneiros saxões, continua a ser uma mancha no seu reinado. Contra os ávaros da Panónia (791–796), cujos tesouros acumulados durante séculos saqueou. Contra os muçulmanos de Espanha (778), onde sofreu uma derrota em Roncesvalles, imortalizada dois séculos depois no Cantar de Roldão.

Mas Carlos Magno não foi apenas um conquistador. Foi também um administrador. Dividiu o seu império em condados, dirigidos por condes nomeados por ele. Enviava os «missi dominici» (mensageiros reais) para controlar os condes e administrar justiça. Estandardizou pesos e medidas, reformou a moeda, fomentou o comércio.

E sobretudo foi um promotor da cultura. O «renascimento carolíngio» viu a fundação de escolas monásticas, a cópia de manuscritos antigos, o desenvolvimento de uma escrita estandardizada (a minúscula carolíngia). Sem Carlos Magno, teríamos perdido grande parte da literatura latina antiga.

A 25 de dezembro do ano 800, Carlos Magno foi coroado «imperador dos romanos» pelo papa Leão III em Roma. Foi uma revolução: pela primeira vez desde o ano 476, voltava a haver um imperador no Ocidente. Carlos Magno afirmava restaurar o Império Romano; na realidade, criou algo de novo.

Napoleão: guerra total e reformas

Napoleão conquistou o seu império com a guerra, mas com um novo tipo de guerra. Os exércitos da Revolução tinham inventado a conscrição em massa, a mobilização nacional. Napoleão aperfeiçoou este sistema e acrescentou o seu próprio génio tático.

As suas campanhas são lendárias. Austerlitz (1805), o «sol de Austerlitz», a sua vitória mais bela. Jena (1806), onde esmagou a Prússia em duas semanas. Wagram (1809), onde venceu novamente a Áustria. Os seus inimigos — Áustria, Prússia, Rússia, Inglaterra — formaram coligação após coligação, e ele derrotou-as todas.

No seu ponto culminante em 1811, o império napoleónico estendia-se de Espanha à Polónia, dos Países Baixos a Itália. Mais de 44 milhões de pessoas viviam sob o seu domínio direto, e os reinos «aliados» — governados pelos seus irmãos — acrescentavam milhões mais.

Mas Napoleão, como Carlos Magno, não foi apenas um conquistador. Foi talvez o maior reformador da história europeia. O Código Civil (1804), que unificou o direito francês e serviu de modelo ao mundo. O Concordato (1801), que pôs fim ao conflito com a Igreja. A Legião de Honra, o sistema educativo (os liceus, a Universidade Imperial), o Banco de França, o cadastro, o sistema métrico…

Estas reformas sobreviveram ao Império. O Código Civil continua em vigor hoje em França e em muitos outros países. O sistema educativo francês conserva a sua estrutura napoleónica. A administração francesa continua marcada pelas suas criações. Napoleão disse: «A minha verdadeira glória não está em ter ganho quarenta batalhas; Waterloo apagará a memória de tantas vitórias. O que nada apagará, o que viverá eternamente, é o meu Código Civil.»

Os seus estilos de governo

Carlos Magno: o rei paternal

Carlos Magno governava de forma pessoal, quase familiar. Viajava constantemente pelo seu império, celebrava assembleias, administrava justiça, inspecionava as suas possessões. Não havia uma capital fixa: a corte seguia o rei.

Aachen tornou-se a sua residência preferida no final do seu reinado. Mandou construir ali uma capela palatina, inspirada em Ravena, símbolo das suas ambições imperiais. Mas mesmo ali continuava a ser acessível. Eginardo, o seu biógrafo, descreve-o a receber visitantes enquanto se banhava e a discutir com os seus conselheiros enquanto se vestia.

O seu reinado baseava-se em relações pessoais. Os condes eram os seus homens, ligados a ele por juramentos. Os missi dominici eram os seus olhos e ouvidos. Os bispos e abades eram os seus aliados na administração das almas e dos territórios. Tudo passava por ele.

Esta centralização tinha os seus limites. O império dependia da personalidade do governante. Sem Carlos Magno para o manter unido, ameaçava desmoronar-se, o que efetivamente aconteceu sob os seus sucessores.

Napoleão: o Estado racional

Napoleão governava de forma moderna, burocrática, racional. Criou uma administração centralizada, hierárquica, eficiente. Prefeitos, subprefeitos, presidentes de câmara: uma clara cadeia de comando de cima para baixo.

Trabalhava enormemente, por vezes 18 horas por dia. Ditava centenas de cartas, supervisionava os mais pequenos detalhes, exigia relatórios constantes. «O trabalho é o meu elemento», dizia. O seu Conselho de Estado, no qual dirigia pessoalmente os debates sobre o Código Civil, dá testemunho do seu compromisso pessoal.

Mas, ao contrário de Carlos Magno, Napoleão construiu um sistema que podia funcionar sem ele. As instituições que criou tinham a sua própria lógica, os seus próprios procedimentos. A administração napoleónica sobreviveu a Napoleão, à Restauração, às revoluções do século XIX. Continua a existir hoje.

Esta modernidade teve um preço: frieza burocrática, uniformidade imposta, esmagamento das particularidades locais. Napoleão queria cidadãos iguais perante a lei, não súbditos com privilégios diferentes. Era progressista, mas também autoritário.

A sua queda: a híbris e as suas consequências

Carlos Magno: morte pacífica, império dividido

Carlos Magno teve a sorte de morrer na sua própria cama. A 28 de janeiro do ano 814 faleceu em Aachen, aos 72 anos, após 46 anos de reinado. Uma duração de vida excecional para a época.

Mas sabia que o seu império era frágil. A tradição franca exigia que o império se dividisse entre os filhos. Carlos Magno tinha três filhos legítimos; dois morreram antes dele. Só Luís, chamado «o Piedoso», herdou todo o império.

Luís não estava à altura da tarefa. Os seus próprios filhos rebelaram-se contra ele e depois combateram entre si. No ano 843, o Tratado de Verdun dividiu o império em três partes: França Ocidental (a futura França), França Oriental (o futuro Sacro Império Romano-Germânico) e um reino intermédio (Lotaríngia) que em breve desapareceu. O império de Carlos Magno não sobrevivera ao seu fundador mais de uma geração.

O que deixou, contudo, foi considerável: a ideia de um império ocidental cristão, o legado cultural do renascimento carolíngio, o modelo de um rei ao mesmo tempo legislador e promotor das artes. O Sacro Império Romano-Germânico, que existiu até 1806, reivindicou o seu legado.

Napoleão: o orgulho castigado

Napoleão foi derrubado pelo seu próprio orgulho. Depois de dez anos de vitórias, acreditava ser invencível. Dois erros fatais destruíram-no.

Primeiro Espanha. Em 1808 destituiu os Bourbons espanhóis e colocou o seu irmão José no trono. Mas o povo espanhol levantou-se. A guerra de guerrilha espanhola (a palavra vem daí) desangrou o exército francês durante seis anos. Wellington avançava lentamente de Portugal para França. Espanha era a «úlcera» que esgotava o Império.

Depois a Rússia. Em 1812, Napoleão invadiu a Rússia com a Grande Armée: quase 700.000 homens, o maior exército alguma vez reunido na Europa. Os russos retiraram-se, queimaram as suas próprias cidades, recusaram-se a travar a batalha decisiva. Napoleão tomou Moscovo, mas Moscovo estava vazia, queimada. Teve de retirar-se.

A retirada da Rússia foi um pesadelo. Frio, fome, cossacos. Dos 700.000 homens, talvez tenham regressado 100.000. A Grande Armée deixara de existir.

Depois, tudo desmoronou-se. Leipzig em 1813 (a «batalha das nações»), a invasão de França em 1814, a primeira abdicação, o exílio em Elba. Os Cem Dias de 1815, Waterloo, a segunda abdicação, Santa Helena. Napoleão morreu em 1821, prisioneiro num rochedo no meio do Atlântico. Tinha 51 anos.

O que nos ensinam

O sonho europeu

Carlos Magno e Napoleão não conseguiram criar um império europeu duradouro. Mas mesmo o seu fracasso ensina-nos algo.

Demonstraram que a Europa não pode unir-se pela força. Os povos europeus são demasiado diferentes, estão demasiado ligados às suas próprias particularidades. Cada conquista gera resistência, cada ocupação gera ressentimento. O império de Carlos Magno desmoronou-se com a sua morte; o império de Napoleão desabou sob os nacionalismos que ele próprio tinha despertado.

Mas também demonstraram que a ideia de uma Europa unida é possível. Que os europeus podem partilhar instituições, leis, uma cultura. O Código Napoleónico estendeu-se muito para além das fronteiras do Império. O renascimento carolíngio criou uma base cultural comum.

A atual União Europeia tenta tornar realidade este sonho por outros meios: cooperação em vez de conquista, direito em vez de força, instituições democráticas em vez de um imperador. O Prémio Carlos Magno, atribuído todos os anos em Aachen, honra quem trabalha pela unidade europeia. O nome não é casual.

O génio e os seus limites

Estes dois homens foram génios, cada um à sua maneira. Carlos Magno tinha o génio da organização e da visão a longo prazo. Napoleão tinha o génio militar e administrativo. Ambos transformaram a Europa.

Mas o génio tem os seus limites. Pode conquistar, mas nem sempre preservar. Pode criar, mas nem sempre transmitir. Carlos Magno não conseguiu formar sucessores capazes. Napoleão não soube quando parar.

Talvez a lição seja que as grandes empresas humanas não podem fundar-se num só homem. Devem ser sustentadas por instituições, culturas, povos. Carlos Magno e Napoleão criaram impérios pessoais; não criaram nações.

Um legado duradouro

E, contudo, o seu legado é real. Não o império, que desmoronou. Mas as ideias, as instituições, as transformações.

De Carlos Magno herdámos a ideia de uma civilização europeia cristã, a importância da educação e da cultura, o modelo do governante legislador. O Sacro Império Romano-Germânico durou mil anos. A Igreja e o Estado continuaram a dançar juntos durante séculos.

De Napoleão herdámos o Código Civil, a administração moderna, a ideia da igualdade perante a lei. Estas criações continuam vivas. Cada vez que um francês paga impostos ou assina um contrato, utiliza instituições napoleónicas.

Conclusão: dois imperadores, a mesma pergunta

Carlos Magno e Napoleão colocam a mesma pergunta: pode a Europa unir-se? Podemos criar um espaço comum em que os povos europeus vivam sob as mesmas leis, partilhem as mesmas instituições, construam uma civilização comum?

As suas respostas foram semelhantes: sim, mediante a conquista. E o seu fracasso foi semelhante: o império não sobreviveu ao seu criador.

Mas a pergunta persiste. Hoje, a União Europeia tenta respondê-la de outra forma. Não com a guerra, mas com a negociação. Não com a coerção, mas com o consenso. Não com um imperador, mas com instituições democráticas.

Terá sucesso esta tentativa onde fracassaram Carlos Magno e Napoleão? A história só nos dirá dentro de alguns séculos. Mas uma coisa é certa: o sonho europeu, o sonho que ambos os imperadores perseguiram cada um à sua maneira, não está morto. Continua a perseguir-nos, a inspirar-nos, a dividir-nos.

Carlos Magno e Napoleão estão mortos há muito tempo. Mas a sua pergunta continua a ser a nossa: o que é a Europa, e o que queremos fazer com ela?