Voltaire vs Rousseau: duas Ilustrações, duas filosofias
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Voltaire vs Rousseau: duas Ilustrações, duas filosofias

By Historic Figures
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Dois gigantes da Ilustração que se odiavam mutuamente. Descubra como Voltaire e Rousseau moldaram o pensamento moderno, as suas ideias opostas sobre o ser humano e a sociedade, e por que a sua disputa ainda ressoa hoje.

Voltaire vs Rousseau: duas Ilustrações, duas filosofias

«Recebi, senhor, o seu novo livro contra a espécie humana. Nunca se empregou tanto engenho para nos tornar estúpidos; ao ler a sua obra, dá vontade de andar a quatro patas.»

Esta carta de Voltaire a Rousseau, de 1755, resume perfeitamente a sua relação: uma mistura de admiração reticente e desprezo mordaz. Estes dois homens, os maiores filósofos da Ilustração francesa, odiavam-se com uma paixão que só igualava o seu génio.

Voltaire (1694-1778) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) viveram na mesma época, frequentaram os mesmos salões e lutaram contra os mesmos inimigos. Mas representavam duas visões radicalmente opostas do ser humano e da sociedade. A sua disputa não era pessoal: era um conflito de ideias que ainda molda o nosso mundo.

Duas vidas, dois destinos

Voltaire: o príncipe da Ilustração

François-Marie Arouet — adotou o nome de Voltaire apenas aos 24 anos — nasceu em 1694 numa família burguesa parisiense abastada. O seu pai era notário, a sua família bem estabelecida. Cresceu no conforto, frequentou os melhores colégios jesuítas e mostrou desde muito jovem um talento literário excecional.

Aos 20 anos já era famoso como poeta e dramaturgo. Aos 30 anos, as suas tragédias competiam com as de Corneille e Racine. Aos 40 anos era o escritor mais famoso da Europa. Reis e rainhas disputavam a sua presença, os editores lutavam pelos seus manuscritos, as suas ocorrências engenhosas circulavam pelos salões.

Mas esta fama tinha um preço. Voltaire foi encerrado duas vezes na Bastilha pelos seus escritos satíricos, exilado três anos em Inglaterra e expulso várias vezes de Paris. Aprendeu rapidamente que aos poderosos não agrada ser ridicularizado, mas nunca se conseguiu conter.

A sua estadia em Inglaterra (1726-1729) foi decisiva. Ali descobriu uma sociedade mais livre e mais tolerante, onde um Newton podia ser enterrado em Westminster e um Locke respeitado como filósofo. Regressou com as Cartas Filosóficas, um elogio de Inglaterra que era também uma crítica demoledora de França. O livro foi queimado pelo carrasco.

Voltaire passou a vida entre a glória e a desgraça, entre as cortes reais e os refúgios de fronteira. Finalmente instalou-se em Ferney, perto de Genebra, de onde podia fugir para a Suíça se as autoridades francesas o ameaçassem. Dali inundou a Europa com folhetos, tragédias, contos filosóficos e cartas: uma produção impressionante que enche dezenas de volumes.

Rousseau: o marginal atormentado

Jean-Jacques Rousseau nasceu em 1712 em Genebra, numa família de relojoeiros protestantes. A sua mãe morreu ao dar à luz, uma culpa que carregou toda a vida. O seu pai, instável e violento, abandonou-o aos 10 anos. Rousseau foi criado por tios, colocado como aprendiz com um gravador brutal e fugiu aos 16 anos.

A sua juventude foi um vagabundar. Viveu de trabalhos ocasionais, converteu-se ao catolicismo (depois voltou ao protestantismo), foi protegido e amante de Madame de Warens, uma mulher mais velha que o introduziu na cultura. Aprendeu música de forma autodidata, leu tudo o que pôde encontrar e desenvolveu uma sensibilidade exacerbada que nunca o abandonou.

Aos 30 anos, Rousseau chegou a Paris sem dinheiro, sem contactos e sem títulos. Sobreviveu copiando música, dando aulas e escrevendo artigos. Frequentou os filósofos — Diderot, d’Alembert, Condillac — mas nunca se sentiu realmente um deles. Era demasiado pobre, demasiado rude, demasiado emocional.

A sua fama chegou de repente, em 1750. A Academia de Dijon tinha proposto um tema de concurso: «O progresso das ciências e das artes contribuiu para corromper ou purificar os costumes?» Todos os filósofos teriam respondido, naturalmente, que sim, que o progresso era um bem. Rousseau respondeu que não, e ganhou o prémio.

Este Discurso sobre as Ciências e as Artes desencadeou um escândalo. Rousseau afirmava que a civilização nos tinha corrompido, que o homem natural era bom, que o progresso era uma ilusão. Era um ataque frontal contra tudo o que a Ilustração defendia. E foi o início da sua guerra com Voltaire.

As suas filosofias: duas visões do ser humano

Voltaire: o progresso através da razão

Voltaire acreditava no progresso. A humanidade avançava, lentamente mas com segurança, da barbárie à civilização. As ciências descobriam as leis da natureza, a filosofia dissipava a superstição, o comércio suavizava os costumes. O futuro seria melhor do que o passado.

O motor deste progresso era a razão. Para Voltaire, os males da humanidade provinham da ignorância, do fanatismo e da superstição. A solução era a educação, a difusão das luzes e a luta contra os preconceitos. «Esmagai o infame!», repetia: o infame era a intolerância religiosa.

Voltaire não era ingénuo. Sabia que o mal existia, que a injustiça estava em todo o lado, que os poderosos esmagavam os fracos. Cândido, a sua obra-prima, é uma sátira feroz do otimismo complacente. Mas acreditava que as coisas podiam melhorar, passo a passo, reforma após reforma.

A sua filosofia era prática e concreta. Não construía sistemas abstractos: lutava contra injustiças concretas. O caso Calas (um protestante executado injustamente), o caso do cavaleiro de La Barre (um jovem torturado por blasfémia), o caso Sirven… Voltaire lutou para reabilitar as vítimas da intolerância, usando a pena como arma.

«É preciso cultivar o nosso jardim», conclui Cândido. Para Voltaire, isto significava: deixar as especulações metafísicas e trabalhar para melhorar o nosso mundo aqui e agora.

Rousseau: o regresso à natureza

Rousseau acreditava exactamente o contrário. O ser humano nasce bom, dizia, é a sociedade que o corrompe. O «bom selvagem», que vivia no estado de natureza, era livre, feliz e virtuoso. A civilização tinha-o acorrentado, tornado infeliz e corrompido.

«O homem nasce livre, e em toda a parte se encontra acorrentado.» Esta célebre frase de O Contrato Social resume o seu pensamento. As instituições sociais — a propriedade, as leis, os governos — não eram um progresso, mas instrumentos de opressão. Tinham criado a desigualdade, a servidão e a infelicidade.

A solução de Rousseau não era o regresso ao estado de natureza: sabia que isso era impossível. Era a reconstrução da sociedade sobre novas bases, em harmonia com a natureza humana. O Contrato Social propunha um modelo: uma democracia em que a «vontade geral» guiaria as decisões, em que cada cidadão seria ao mesmo tempo soberano e súdito.

Rousseau também acreditava na educação, mas numa educação diferente da de Voltaire. Em Émile propunha uma pedagogia «natural»: deixar que a criança se desenvolvesse ao seu próprio ritmo, em contacto com a natureza, longe dos livros e das restrições artificiais. A educação devia formar seres humanos, não eruditos.

A sua filosofia era tão emocional como intelectual. A razão sozinha não bastava: também era preciso escutar o coração, a consciência, o sentimento interior. «Consciência! Consciência! Instinto divino, voz imortal e celestial…» Rousseau confiava mais na intuição moral do que no raciocínio abstracto.

A sua disputa: um ódio mútuo

As origens do conflito

No início admiravam-se mutuamente. Voltaire elogiou o primeiro discurso de Rousseau, embora não estivesse de acordo com ele. Rousseau admirava as tragédias de Voltaire. Trocaram cartas corteses.

Mas as tensões manifestaram-se rapidamente. Voltaire zombou da tese de Rousseau sobre a corrupção causada pela civilização. Rousseau criticou o estilo de vida luxuoso de Voltaire. Os seus temperamentos eram incompatíveis: um era um aristocrata do espírito, o outro um plebeu do sentimento.

A rutura produziu-se após o terramoto de Lisboa (1755). Voltaire escreveu um poema desesperado sobre o mal e a injustiça do mundo. Rousseau respondeu: a desgraça dos lisboetas vinha da sua decisão de viver amontoados numa grande cidade, longe da natureza. Voltaire ficou indignado.

Depois vieram os assuntos de Genebra. Voltaire tinha-se estabelecido perto da cidade e representava obras de teatro ali, algo proibido pelas autoridades calvinistas. Fez uma campanha para levantar esta proibição. Rousseau, na sua Carta sobre os Espetáculos, defendeu a proibição: o teatro corrompia os costumes. Voltaire considerou-o uma traição pessoal.

A escalada

A partir daí, a guerra foi total. Voltaire atacou Rousseau em folhetos anónimos, ridicularizando a sua pobreza, as suas contradições e a sua paranoia. Revelou que Rousseau tinha deixado os seus cinco filhos na beneficência pública, um segredo que Rousseau tinha guardado zelosamente.

Rousseau contra-atacou nas Confissões, um autorretrato impiedoso que também acerta contas com os seus inimigos. Descreve Voltaire como um homem «cujos talentos só servem para fazer mal», um hipócrita que pregava a virtude enquanto vivia no luxo.

Os dois bandos enfrentaram-se. Os «filósofos» apoiavam Voltaire. Os românticos emergentes preferiam Rousseau. A Europa da Ilustração dividiu-se entre razão e sentimento, progresso e natureza, civilização e autenticidade.

A disputa durou até à sua morte, no mesmo ano: 1778. Nunca se reconciliaram.

O seu legado: duas modernidades

Voltaire: o liberalismo

O legado de Voltaire é o liberalismo político. A separação da Igreja e do Estado, a liberdade de expressão, a tolerância religiosa, os direitos individuais: tudo isto provém das lutas de Voltaire.

A sua luta contra a intolerância continua urgentemente relevante. Cada vez que um fanático mata em nome da sua fé, cada vez que um governo censura a imprensa, cada vez que se persegue uma pessoa pelas suas opiniões, pensamos em Voltaire. «Não concordo com o que diz, mas defenderei até à morte o seu direito de o dizer»: esta frase (que provavelmente nunca disse, mas que resume o seu pensamento) tornou-se o credo do liberalismo.

Voltaire também deixou um estilo: a ironia, o sarcasmo, o engenho demoledor. O seu espírito continua a inspirar satíricos, polemistas e todos os que usam o riso como arma contra o obscurantismo.

Mas Voltaire também tinha os seus limites. Era elitista e desprezava o povo comum. Não acreditava realmente na democracia: preferia o «despotismo esclarecido» de Catarina da Rússia ou de Frederico da Prússia. E o seu antissemitismo (comum para a época, mas virulento nele) continua a ser uma mancha no seu legado.

Rousseau: democracia e romantismo

O legado de Rousseau é duplo: político e cultural.

Politicamente, Rousseau é o pai da democracia moderna. O Contrato Social inspirou os revolucionários de 1789, a Declaração dos Direitos do Homem e as constituições republicanas. A ideia de que a soberania pertence ao povo, de que o governo deriva a sua legitimidade do consentimento dos governados, de que a vontade geral deve prevalecer: tudo isto provém de Rousseau.

Mas esta influência é ambígua. Robespierre invocou Rousseau ao enviar os «inimigos do povo» para a guilhotina. A «vontade geral» pode tornar-se numa tirania da maioria. Os críticos de Rousseau vêem-no como o antepassado dos totalitarismos modernos: uma acusação exagerada, mas não infundada.

Culturalmente, Rousseau é o pai do romantismo. O seu culto da natureza, a sua valorização do sentimento, a sua atenção à infância, a sua exploração da interioridade: tudo isto anuncia o século XIX. As Confissões inventaram a autobiografia moderna. A Nova Heloísa lançou o romance sentimental. Émile revolucionou a pedagogia.

Rousseau também inventou uma postura: a do intelectual marginal, incompreendido, perseguido, mas portador de uma verdade que a sociedade se recusa a escutar. Esta figura do «génio maldito» atravessa todo o romantismo e continua a influenciar o nosso imaginário.

O que nos ensinam hoje

Um debate ainda vivo

A disputa entre Voltaire e Rousseau não terminou. Continua sob outras formas, com outras palavras.

É voltairiano ou rousseauista? Acredita no progresso ou pensa que perdemos algo pelo caminho? Confia na razão ou no sentimento? Prefere a liberdade individual ou a igualdade colectiva? Estas perguntas ainda dividem as nossas sociedades.

Os liberais são os herdeiros de Voltaire: acreditam no mercado, na liberdade individual e no progresso através da inovação. Os ecologistas são muitas vezes rousseauistas: criticam a civilização industrial, apoiam um regresso a modos de vida mais «naturais» e valorizam a comunidade acima do individualismo.

Até o debate sobre as redes sociais tem tons voltairianos e rousseauistas. Os partidários da liberdade de expressão absoluta invocam Voltaire. Quem quer regular o discurso de ódio invoca a «vontade geral» de Rousseau.

Duas verdades complementares?

Talvez Voltaire e Rousseau tivessem razão ambos, e ambos estivessem errados.

Voltaire tinha razão ao acreditar no progresso. Vivemos mais tempo, mais saudáveis, com mais liberdade do que os nossos antepassados. A Ilustração trouxe a medicina moderna, os direitos humanos e a abolição da escravatura.

Mas Rousseau tinha razão ao advertir-nos. O progresso também criou a poluição, as armas de destruição em massa e a alienação do trabalho moderno. Ganhámos conforto, mas ganhámos felicidade?

Voltaire tinha razão ao defender a razão contra o fanatismo. Mas Rousseau tinha razão ao lembrar-nos que o ser humano não é só razão: também é emoção, intuição e consciência.

Talvez precisemos de ambos: a clareza voltairiana para combater o obscurantismo, e a sensibilidade rousseauista para não esquecer a nossa humanidade.

Conclusão: duas Ilustrações, uma humanidade

Voltaire e Rousseau odiavam-se, mas travavam a mesma batalha: a da liberdade humana contra as tiranias do seu tempo. Usavam armas diferentes — um a razão, o outro o sentimento — mas apontavam ao mesmo inimigo: a opressão do ser humano pelo ser humano.

A sua disputa foi também uma conversa. Ao desafiarem-se mutuamente, obrigaram-se a clarificar o seu pensamento, a responder às objecções e a ir mais longe. A filosofia da Ilustração nasceu deste diálogo contraditório tanto como das suas obras individuais.

Hoje precisamos de ambas as vozes. Precisamos de Voltaire para nos lembrar que a razão é a nossa melhor ferramenta contra a ignorância e o fanatismo. Precisamos de Rousseau para nos lembrar que o progresso não é um fim em si mesmo, que deve servir o florescimento humano.

Morreram no mesmo ano, 1778, com poucas semanas de diferença. Onze anos depois rebentou a Revolução Francesa, uma revolução que ambos reivindicaram para si. Os revolucionários citavam Voltaire contra a Igreja e Rousseau contra a monarquia. O mundo moderno nasceu do seu duplo legado.

Este duplo legado continua a ser o nosso. Cada vez que debatemos liberdade e igualdade, razão e emoção, progresso e natureza, continuamos a conversa que Voltaire e Rousseau começaram há mais de dois séculos. Ensinaram-nos a pensar e a nunca deixar de nos questionar.

Para saber mais, consulte as nossas biografias de Voltaire e Jean-Jacques Rousseau.