Mozart vs Beethoven: Génios da música clássica
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Mozart vs Beethoven: Génios da música clássica

By Historic Figures
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Dois compositores que transformaram a música para sempre. Descubra o que une e separa Mozart e Beethoven, os seus estilos, as suas vidas agitadas e porque a sua música ainda hoje nos comove.

Mozart vs Beethoven: Génios da música clássica

Existe uma lenda, provavelmente verdadeira, que conta o seu único encontro. Em 1787, um jovem de 16 anos, já célebre como menino prodígio do piano, apresentou-se em casa de Mozart em Viena. Improvisou ao piano. Mozart, impressionado, teria dito aos seus amigos: «Prestem atenção a este. Um dia fará falar o mundo.»

Esse jovem era Ludwig van Beethoven. Mozart morreu quatro anos mais tarde, aos 35 anos. Beethoven viveu até aos 56 anos e transformou a música para sempre. Juntos formam o coração do que chamamos «música clássica», embora os seus estilos sejam radicalmente diferentes.

Mozart (1756-1791) e Beethoven (1770-1827): dois génios, duas épocas, duas visões da arte. Um encarna a perfeição e a graça, o outro a paixão e a luta. Comparar estes dois compositores significa compreender como a música ocidental passou do classicismo ao romantismo, e porque ainda hoje nos comove.

Duas vidas, dois destinos

Mozart: O menino prodígio

Wolfgang Amadeus Mozart nasceu em 1756 em Salzburgo, numa família de músicos. O seu pai Leopold era um compositor respeitado e um experiente professor de música. Reconheceu cedo o génio do filho e decidiu cultivá-lo — e explorá-lo.

Aos 3 anos, Wolfgang tocava o cravo. Aos 5 anos, compunha. Aos 6 anos, tocou perante a imperatriz Maria Teresa em Viena. Aos 8 anos, escreveu a sua primeira sinfonia. A sua infância foi uma digressão europeia constante: Paris, Londres, Amesterdão, Roma, Milão… Em todo o lado, o «pequeno prodígio» surpreendia as cortes reais.

Esta infância excecional teve um preço. Mozart nunca conheceu a normalidade. Foi sempre o prodígio exposto, o artista aclamado e depois esquecido. Aprendeu a encantar, a agradar, a entreter. Também aprendeu que o talento não garante a sorte.

Já adulto, Mozart estabeleceu-se em Viena, onde vivia de aulas, concertos e encomendas. Casou com Constanze Weber, teve seis filhos (quatro dos quais morreram na primeira infância) e compunha a um ritmo vertiginoso. Óperas (As bodas de Fígaro, Don Giovanni, A flauta mágica), sinfonias, concertos, música de câmara: mais de 600 obras em 35 anos de vida.

Mas o sucesso era inconstante. Mozart era um mau gestor, gastava mais do que ganhava, pedia dinheiro emprestado a amigos. Os seus últimos anos foram marcados por dificuldades financeiras, doença e talvez depressão. Morreu em dezembro de 1791, provavelmente de febre reumática, e foi enterrado numa vala comum. Tinha 35 anos.

Beethoven: O titã surdo

Ludwig van Beethoven nasceu em 1770 em Bona, numa família de músicos de corte. O seu pai Johann era um tenor alcoólico que sonhava em transformar o filho num novo Mozart. Fê-lo trabalhar sem descanso, por vezes com brutalidade. A infância de Beethoven foi dura.

Aos 11 anos, já era organista adjunto da corte. Aos 16 anos, conheceu Mozart. Aos 21 anos, estabeleceu-se em Viena, onde rapidamente causou sensação como pianista virtuoso. As suas improvisações eram lendárias: poderosas, imprevisíveis, por vezes aterradores.

Mas por volta de 1796 chegou a catástrofe. Beethoven começou a perder a audição. Para um músico, era uma sentença de morte artística. Ocultou a sua doença todo o tempo que pôde, depois mergulhou no desespero. Em 1802 escreveu o «Testamento de Heiligenstadt», uma carta dilacerante aos seus irmãos na qual considerava o suicídio.

Não se tirou a vida. Pelo contrário, decidiu lutar. «Quero agarrar o destino pela garganta», escreveu. A sua surdez avançava implacavelmente (no final da sua vida estava completamente surdo), mas a sua música tornava-se mais audaz, mais profunda, mais revolucionária.

Beethoven nunca se casou, embora se tenha apaixonado várias vezes (em particular por uma misteriosa «Amada Imortal», cuja identidade ainda hoje se debate). Viveu sozinho, em apartamentos desarrumados, mudando-se constantemente. Era difícil, colérico, paranoico. Mas também era capaz de ternura, humor, generosidade.

Morreu em março de 1827, durante uma tempestade. Segundo a lenda, levantou o punho ao céu no momento da morte. Mais de 20.000 pessoas seguiram o seu cortejo fúnebre.

A sua música: Dois universos sonoros

Mozart: Perfeição e graça

A música de Mozart parece fluir sem esforço. As melodias sucedem-se com uma leveza maravilhosa, as harmonias são equilibradas, as formas claras. Tudo parece simples, e precisamente isso é genial.

Esta aparente simplicidade esconde um refinamento excecional. Ouçam o segundo movimento do Concerto para clarinete: uma melodia de beleza dilacerante, acompanhada por harmonias de uma subtileza infinita. Ou o final da Sinfonia «Júpiter»: uma proeza contrapontística em que cinco temas se combinam num turbilhão de virtuosismo intelectual.

Mozart destaca-se na ópera. As bodas de Fígaro, Don Giovanni, Così fan tutte, A flauta mágica: são ao mesmo tempo obras-primas psicológicas e musicais. Mozart compreendia os seres humanos. Sabia traduzir em música os ciúmes, o amor, a ira, o desejo, a ternura. As suas personagens estão vivas.

Há uma luminosidade em Mozart, mesmo nas obras mais sombrias. O Réquiem, que deixou inconcluso ao morrer, está obcecado com a morte, mas também há luz, consolo, esperança. Mozart nunca desespera realmente.

O seu estilo é frequentemente chamado «clássico», e o é, no sentido em que encarna o ideal do classicismo vienense: equilíbrio, proporção, clareza, elegância. Mas seria um erro reduzi-lo a uma «beleza» superficial. Sob a superfície polida há profundezas.

Beethoven: Luta e triunfo

A música de Beethoven é uma luta. Frequentemente começa na escuridão: um acorde enigmático, um motivo obsessivo, uma pergunta sem resposta. Depois luta, desenvolve-se, ultrapassa obstáculos. E finalmente triunfa.

As primeiras quatro notas da Quinta Sinfonia, ta-ta-ta-TAAA, são talvez o motivo mais famoso da história da música. Diz-se que Beethoven afirmou que representavam «o destino a bater à porta». Toda a sinfonia é uma viagem da sombra à luz, do dó menor inicial ao triunfal dó maior do final.

Esta dramaturgia musical é a marca de Beethoven. A Nona Sinfonia leva o conceito ainda mais longe: após três movimentos puramente orquestrais, entram vozes humanas para cantar o «À alegria» de Schiller. É toda a humanidade que celebra a fraternidade universal.

Beethoven também compôs obras de uma intimidade comovente. Os últimos quartetos de cordas são meditações sobre a condição humana de uma profundidade filosófica incomparável. A «Sonata ao Luar», a «Patética», a «Appassionata»: confissões musicais de uma intensidade emocional excecional.

O seu estilo evoluiu radicalmente ao longo da sua vida. As obras de juventude ainda são mozartianas. O período «heroico» (1803-1812) produziu as sinfonias mais célebres, os concertos, Fidelio. O período tardio (1815-1827) é experimental, visionário, por vezes desconcertante. Beethoven abriu portas que outros não cruzariam até décadas mais tarde.

Os seus métodos: Inspiração vs trabalho

Mozart: O dom divino

Mozart compunha com uma facilidade que parecia milagrosa. Os seus contemporâneos relatam que podia escrever uma sinfonia inteira em poucos dias, um quarteto numa noite, um ária durante uma partida de bilhar. A sua correspondência mostra que frequentemente ouvia obras inteiras na sua cabeça antes de as escrever.

«Quando estou completamente só comigo mesmo», escreveu ao pai, «por exemplo quando viajo em carruagem ou caminho depois de uma boa refeição, ou de noite quando não consigo dormir, é então que as ideias me chegam a torrentes e da melhor maneira.»

Esta facilidade alimentou o mito de Mozart como «filho dos deuses», um génio que recebia a música diretamente do céu. Isto é parcialmente verdade: tinha uma memória musical fenomenal, um ouvido absoluto, uma concentração excecional.

Mas também é parcialmente falso. Mozart trabalhou enormemente. Os seus manuscritos mostram correções, revisões, passagens riscadas. Estudou as obras de Bach e Haendel, analisou as composições de Haydn. O «dom» baseava-se num domínio técnico adquirido através de anos de prática intensa.

Beethoven: Suor e sangue

Beethoven compunha de outra maneira. Lutava com cada nota, cada frase, cada transição. Os seus cadernos estão cheios de versões sucessivas, tentativas falhadas, correções furiosas. Uma melodia podia passar por dezenas de versões antes de alcançar a sua forma definitiva.

«Levo os meus pensamentos comigo durante muito tempo, frequentemente muito tempo, antes de os escrever», escreveu. «Como sou consciente do que quero, a ideia fundamental nunca me abandona. Sobe, cresce, ouço-a e vejo-a desenvolver-se em todas as suas dimensões.»

Este processo era doloroso. Beethoven queixava-se constantemente da dificuldade de compor, dos bloqueios criativos, de uma insatisfação permanente. Mas precisamente isso tornava a sua música tão poderosa: cada nota custava caro.

A sua surdez complicou ainda mais as coisas. Nos seus últimos anos, compunha música que já não podia ouvir. «Ouvia» internamente, imaginando os timbres e as harmonias. Talvez por isso as suas últimas obras sejam tão estranhas, tão visionárias: não estavam limitadas pelas convenções do que se «podia» ou «devia» fazer.

As suas personalidades: O menino e o titã

Mozart: O encantador frágil

Mozart era encantador, divertido, sedutor. As suas cartas estão cheias de jogos de palavras, brincadeiras escatológicas (tinha um sentido de humor muito particular), ternura para com os seus entes queridos. Amava a companhia, o bilhar, as veladas com amigos.

Mas sob o encanto havia fragilidade. Mozart precisava de ser amado, reconhecido, admirado. Os fracassos afetavam-no profundamente. A crítica adoecia-o. Era quase patologicamente dependente da aprovação dos outros.

Esta dependência talvez proviesse da sua infância. Sempre exposto, sempre julgado, tinha aprendido que a sua existência dependia do seu desempenho. Quando os aplausos cessavam, quem era realmente? Esta pergunta parece tê-lo atormentado.

Também havia uma espécie de ingenuidade em Mozart. Não compreendia realmente o dinheiro, a política, as intrigas de corte. Fazia inimigos sem querer, dizia o que pensava no momento errado, recusava-se a jogar o jogo. Esta autenticidade tornava-o simpático — e vulnerável.

Beethoven: O rebelde inquebrantável

Beethoven era difícil. Colérico, sensível, paranoico, brigava regularmente com amigos, editores, benfeitores. Era capaz de acessos de raiva aterradores, seguidos de reconciliações chorosas. Viver com ele devia ser exaustivo.

Mas esta dificuldade era também uma força. Beethoven recusava-se a curvar-se. Quando um príncipe lhe reprovou o comportamento, respondeu: «Príncipe, o que é, é por acaso do nascimento. O que sou, sou por mim mesmo. Houve e haverá milhares de príncipes. Só há um Beethoven.»

Este orgulho não era arrogância, era uma revolução. Antes de Beethoven, os compositores eram servos. Haydn vestia a librea dos Esterházy. Mozart inclinava-se perante os arcebispos. Beethoven tratava os aristocratas como iguais, ou inferiores. Inventou a figura do artista romântico: o génio solitário que não deve nada a ninguém.

A sua surdez intensificou o seu isolamento. Isolado do mundo dos sons, retirou-se em si mesmo, desenvolvendo uma vida interior de uma intensidade excecional. A música dos seus últimos anos parece vir de outro lugar, de um espaço que só ele podia alcançar.

O seu legado: Duas revoluções

Mozart: A perfeição inatingível

O legado de Mozart é uma forma de perfeição. Levou o estilo clássico ao seu ponto culminante, criou obras de uma beleza insuperável, estabeleceu padrões que ninguém conseguiu realmente alcançar.

Para os compositores posteriores, Mozart foi um problema. Como escrever depois dele? Tudo estava dito, tudo estava feito. Brahms demorou anos a escrever a sua primeira sinfonia, paralisado pela sombra de Mozart (e de Beethoven). «Não têm ideia», dizia, «de como se sente ouvir os passos de um gigante atrás de si.»

Mozart também estabeleceu o repertório. As suas óperas são representadas em todo o mundo, os seus concertos para piano são exercícios obrigatórios para todo o pianista, as suas sinfonias abrem os programas das orquestras. Tornou-se no símbolo da «grande música» em si.

Mas este legado também tem os seus limites. Mozart pode parecer demasiado perfeito, demasiado elegante, demasiado «belo». Os ouvintes que procuram intensidade emocional, angústia, luta, podem achá-lo demasiado liso. É um erro, mas compreensível.

Beethoven: A abertura de possibilidades

O legado de Beethoven é uma revolução. Rompeu com as formas clássicas, ampliou as dimensões das obras, intensificou a expressão emocional. Depois dele, tudo era possível.

A Nona Sinfonia abriu caminho a Mahler, Bruckner, todos os sinfonistas românticos. Os últimos quartetos anteciparam a música do século XX. A Missa Solemnis redefiniu a música sacra. Cada obra tardia era uma porta para o futuro.

Beethoven também criou o mito do artista sofredor. O génio que luta contra o destino, que transforma a dor em beleza, que triunfa apesar de tudo: essa é uma figura romântica que Beethoven encarnou primeiro. Todos os artistas malditos, de Schubert a Van Gogh, lhe devem algo.

A sua influência vai para além da música. A Nona Sinfonia tornou-se no hino europeu. A «Ode à Alegria» canta-se em momentos de celebração coletiva. Beethoven é um símbolo do espírito humano que se recusa a submeter.

Conclusão: Dois génios, uma música

Mozart e Beethoven não são rivais, complementam-se. Mozart encarna a perfeição do que é; Beethoven, a procura do que poderia ser. Mozart consola-nos; Beethoven eleva-nos. Mozart mostra-nos a beleza do mundo; Beethoven empurra-nos a transformá-lo.

O seu encontro de 1787 foi simbólico. O jovem Beethoven encontrou-se com o mestre estabelecido, o passado encontrou-se com o futuro. Mozart reconheceu o génio de Beethoven, e talvez pressentiu que seria ultrapassado.

Mas «ultrapassar» não é a palavra certa. Não se ultrapassa Mozart, tal como também não se ultrapassa Beethoven. Cada um alcançou cumes diferentes, explorou territórios diferentes. A música ocidental seria inconcebível sem um ou outro.

Hoje, a sua música continua a acompanhar-nos. Nas salas de concerto, nos auscultadores, nos filmes, nas nossas memórias. Mozart para os momentos de graça, Beethoven para os momentos de luta. Dois génios, duas vozes, que ainda hoje nos falam através dos séculos.

E talvez esse seja o verdadeiro génio: criar algo que perdura, que comove, que emociona, muito depois da nossa morte. Mozart e Beethoven conseguiram-no. A sua música é imortal, embora eles não o fossem.