Joana d'Arc contra Buda: personalidades espirituais e o seu impacto
Uma camponesa francesa e um príncipe indiano. Duas vidas radicalmente diferentes, mas a mesma capacidade de mudar o mundo através da fé. Descubra como Joana d'Arc e Buda transformaram a história através da sua espiritualidade.
Joana d’Arc contra Buda: personalidades espirituais e o seu impacto
Eis talvez a comparação mais improvável da história. Por um lado, uma adolescente analfabeta da França rural do século XV que ouvia vozes e conduzia exércitos à batalha. Por outro, um príncipe indiano do século VI a.C. que abandonou o seu palácio para meditar debaixo de uma árvore e fundou uma das grandes religiões do mundo.
Joana d’Arc (1412–1431) e Siddhartha Gautama, conhecido como Buda (aprox. 563–483 a.C.), não têm aparentemente nada em comum. Dois milénios separam-nos. As suas culturas, crenças e métodos são radicalmente diferentes. E, no entanto, ambos mudaram o mundo unicamente pela força da sua convicção espiritual.
Como puderam uma jovem de 17 anos e um sábio de 35 ter um impacto tão duradouro na humanidade? O que é realmente a espiritualidade, e por que razão parece que algumas pessoas estão sintonizadas com algo que outros não percebem?
Duas vidas, dois mundos
Joana: a voz de Deus numa aldeia
Imaginemos Domrémy, uma pequena aldeia da Lorena no início do século XV. A França está em ruínas. A Guerra dos Cem Anos dura há décadas. Os ingleses ocupam o norte do país, o rei Carlos VII nem sequer foi coroado, e os camponeses vivem com medo dos saques.
Aí nasce Joana, filha de Jacques d’Arc, um simples camponês. Não sabe ler nem escrever. Fia lã, cuida de ovelhas, vai à igreja. Uma vida corrente numa época extraordinariamente violenta.
Então, aos 13 anos, tudo muda. No pomar do seu pai, Joana ouve uma voz. Depois duas. Depois três. O arcanjo Miguel, santa Catarina, santa Margarida falam-lhe. Dizem-lhe que tem uma missão: salvar a França, fazer coroar o rei em Reims, expulsar os ingleses.
Durante três anos guarda o segredo. Quem lhe acreditaria? Uma camponesa de 13 anos que afirma receber ordens do céu? Mas as vozes insistem. Tornam-se cada vez mais urgentes. Finalmente, aos 16 anos, Joana decide obedecer.
Buda: o príncipe que renunciou a tudo
Na outra parte do mundo, e dois mil anos antes, desenrola-se um destino completamente diferente. Siddhartha Gautama nasce por volta do ano 563 a.C. no clã dos Shakya, ao pé do Himalaia. O seu pai, Suddhodana, é um rei. A sua mãe, Maya, morre poucos dias depois do seu nascimento.
Um sábio profetiza que a criança se tornará num grande rei ou num grande sábio, mas nunca em ambos. O seu pai, aterrorizado com a ideia de perder o seu herdeiro, decide encerrá-lo no palácio. Siddhartha cresce num luxo absoluto, protegido de todo o sofrimento. Nunca vê um doente, nunca um ancião, nunca um morto. Casa-se com uma bela princesa, Yasodhara, e tem um filho, Rahula.
Mas aos 29 anos Siddhartha abandona o palácio. E aí, o choque. Vê um ancião, encurvado pela idade. Um doente, consumido pela febre. Um cadáver, levado para a fogueira. E finalmente um monge errante, sereno apesar da sua pobreza.
Naquela noite, Siddhartha toma uma decisão que mudará o mundo. Abandona o seu palácio, a sua esposa, o seu filho, a sua herança. Parte em busca da verdade.
A sua busca: ação contra contemplação
Joana: a urgência da ação
O caminho de Joana é fulgurante. Em menos de dois anos, esta adolescente analfabeta consegue o impossível.
Primeiro tem de convencer. Apresenta-se perante Robert de Baudricourt, capitão de Vaucouleurs, e pede-lhe uma escolta para ver o rei. Ele manda-a para casa. Ela volta. Rejeita-a de novo. Volta uma terceira vez. Desta vez algo o convence. Talvez a sua determinação. Talvez os acontecimentos que parecem dar-lhe razão. Concede-lhe homens.
Depois tem de convencer o rei. Carlos VII recebe-a em Chinon, misturada entre os seus cortesãos, para pôr à prova o seu discernimento. Reconhece-o de imediato. Revela-lhe um segredo que só ele conhece (nunca saberemos qual). Fica chocado. Após semanas de interrogatório por parte dos teólogos, é declarada «boa cristã».
Depois vem a guerra. Joana recebe uma armadura, um cavalo, um estandarte. Marcha sobre Orléans, sitiada pelos ingleses há meses. Em nove dias liberta a cidade. É o ponto de viragem da Guerra dos Cem Anos.
Depois empurra em direção a Reims, através de território inimigo. A 17 de julho de 1429, Carlos VII é coroado rei de França. Joana está ao seu lado, com o estandarte na mão. Tem 17 anos.
Buda: a paciência da meditação
O caminho de Buda é completamente diferente. Nenhuma urgência, nenhuma batalha, nenhuma coroação. Apenas uma busca interior que durará seis anos.
Primeiro, Siddhartha experimenta os métodos tradicionais. Estuda com os maiores mestres de meditação da sua época. Domina as suas técnicas, mas algo falta. Não encontrou a resposta à sua pergunta: por que sofremos, e como podemos deixar de sofrer?
Depois experimenta o ascetismo extremo. Durante seis anos jejua, priva-se do sono, martiriza-se. Fica tão magro que se lhe podem ver os ossos através da pele. Mas a verdade continua a escapar-lhe.
Finalmente, exausto, aceita um prato de arroz das mãos de uma jovem. Os seus companheiros ascetas abandonam-no, enojados com esta «fraqueza». Sozinho, senta-se debaixo de uma figueira (a famosa árvore Bodhi) e decide não se mover até encontrar a resposta.
Naquela noite, após horas de meditação, Siddhartha alcança a iluminação. Compreende a natureza do sofrimento, as suas causas e o caminho para a libertação. Torna-se Buda, «o Desperto». Tem 35 anos.
As suas mensagens: duas visões do sagrado
Joana: Deus fala, eu obedeço
A mensagem de Joana é desarmante na sua simplicidade. Não tem uma teologia complicada, nenhuma doutrina elaborada. Ouve vozes, obedece.
Quando lhe perguntam por que faz o que faz, responde: «Porque as minhas vozes mo disseram.» Quando lhe pedem que descreva estas vozes, diz que vão acompanhadas de luz, que têm um bom aroma, que lhe trazem consolo e certeza.
A sua fé é total, absoluta, sem dúvida. Nunca duvida. Mesmo perante os seus juízes, mesmo perante a fogueira, afirma que as suas vozes vêm de Deus. Esta certeza inabalável é tanto a sua força como a sua tragédia.
Para Joana, o sagrado é imediato, pessoal, ativo. Deus não é uma abstração teológica: é uma voz que fala no seu pomar, lhe dá ordens concretas, a leva à batalha. A espiritualidade de Joana é uma espiritualidade da ação: não se contempla Deus, obedece-se-lhe.
Buda: compreender para ser livre
A mensagem de Buda é radicalmente diferente. Nenhum Deus pessoal, nenhuma voz, nenhuma ordem. Apenas uma análise clara da situação humana e um caminho prático para a libertação.
As Quatro Nobres Verdades resumem o seu ensino:
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A vida é sofrimento (dukkha). Nascimento, velhice, doença, morte: tudo está marcado pela insatisfação.
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O sofrimento tem uma causa: o desejo, o apego, a ignorância.
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O sofrimento pode cessar: isso é o nirvana, a extinção do desejo.
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Existe um caminho: o Nobre Óctuplo Caminho, um caminho médio entre a busca do prazer e o ascetismo.
Buda não exige crer. Exige verificar por si próprio. «Não creiam numa tradição só porque é honrada há muitas gerações. Não creiam em nada só porque muitos falam disso. Examinem, e creiam no que vocês mesmos tenham experimentado.»
Para Buda, o sagrado não é exterior: é interior. Não há um Deus que dê ordens, há uma verdade a descobrir em si mesmo. A espiritualidade budista é uma espiritualidade da compreensão: não se reza, medita-se; não se obedece, compreende-se.
Os seus finais: martírio contra paz
Joana: a fogueira de Ruão
Depois da coroação em Reims, tudo se complica para Joana. Carlos VII, já rei legítimo, já não precisa realmente dela. Os conselheiros reais desconfiam desta camponesa que afirma receber ordens do céu. As campanhas militares fracassam.
Em maio de 1430, Joana é capturada em Compiègne pelos borgonheses, aliados dos ingleses. Carlos VII não faz nada para a libertar. É vendida aos ingleses, que organizam um julgamento por heresia.
O julgamento de Ruão é uma armadilha. Os juízes, liderados pelo bispo Cauchon, querem condená-la a todo o custo. Durante meses interrogam-na, tentam encontrar as suas contradições. Mas Joana resiste. As suas respostas são por vezes espantosamente astutas para uma camponesa analfabeta.
Finalmente, exausta, assina uma retratação que provavelmente não compreende. Depois retrata a sua retratação. Volta a vestir roupa de homem, declara que as suas vozes eram verdadeiras. É a recaída, o crime imperdoável para a Igreja da época.
A 30 de maio de 1431, Joana é queimada viva na Praça do Mercado Velho de Ruão. Tem 19 anos. As suas últimas palavras, diz-se, foram «Jesus».
Buda: a entrada no parinirvana
Buda viveu até aos 80 anos. Quarenta e cinco anos depois da sua iluminação, ensinou, caminhou a pé pelo norte da Índia, fundou comunidades de monges e monjas, acolheu discípulos de todas as castas.
A sua morte foi tão serena como a sua vida. Ao sentir que se aproximava o fim, reuniu os seus discípulos e deu-lhes as suas últimas instruções. «Todas as coisas compostas são impermanentes. Trabalhem com diligência pela vossa libertação.»
Depois deitou-se, entrou em meditação e morreu, ou melhor, segundo a tradição budista, entrou no parinirvana, a extinção completa, o fim do ciclo de renascimentos.
Nenhuma violência, nenhum drama, nenhum sacrifício. Apenas uma transição pacífica, em harmonia com tudo o que tinha ensinado sobre a impermanência e o desapego.
O seu legado: duas formas de mudar o mundo
Joana: santa, heroína, símbolo
O legado de Joana é paradoxal. Militarmente fracassou: Paris não foi libertada, a guerra durou ainda 22 anos após a sua morte. E, no entanto, tornou-se numa das figuras mais famosas da história francesa.
Como explicar este paradoxo? Joana não mudou apenas o curso da guerra: mudou algo mais profundo. Devolveu a esperança a um país desesperado. Demonstrou que uma simples camponesa podia desafiar os poderosos. Encarnou uma certa ideia de França.
Ao longo dos séculos, foi reivindicada por todos os lados. Os monárquicos veem nela a fiel servidora do rei. Os republicanos veem nela o povo em armas. Os católicos veem nela uma santa (canonizada em 1920). Os nacionalistas veem nela a encarnação da pátria. As feministas veem nela uma mulher que quebrou as barreiras de género.
Joana tornou-se um mito, e os mitos têm vida própria. A sua história continua a inspirar filmes, livros, peças de teatro. A sua imagem é utilizada por movimentos políticos opostos. Continua a ser, cinco séculos depois da sua morte, um símbolo vivo.
Buda: uma religião mundial
O legado de Buda é mais mensurável: uma religião praticada por mais de 500 milhões de pessoas em todo o mundo. Do Sri Lanka ao Japão, da Tailândia ao Tibete, o budismo moldou civilizações inteiras.
Mas Buda não fundou uma «religião» no sentido ocidental da palavra. Não criou uma igreja, não fixou dogmas, não nomeou um sucessor infalível. Simplesmente ensinou um caminho e convidou cada um a verificá-lo por si mesmo.
Esta flexibilidade explica talvez a diversidade do budismo. O budismo theravada do Sri Lanka não se parece em nada com o budismo zen japonês, que por sua vez se diferencia do budismo tibetano. Mas todos partilham os mesmos fundamentos: as Quatro Nobres Verdades, o Nobre Óctuplo Caminho, a ideia de que o sofrimento pode cessar através da compreensão.
No Ocidente, o budismo ganhou popularidade crescente desde os anos 1960. A meditação de atenção plena (mindfulness), diretamente inspirada em técnicas budistas, é praticada por milhões de pessoas. Os ensinamentos do Dalai Lama chegam a um público que vai muito além dos budistas declarados.
O que nos ensinam: a espiritualidade em duas formas
A fé como motor da ação
Joana mostra-nos que a fé pode ser um motor extraordinário da ação. A sua certeza absoluta deu-lhe uma força que nada podia quebrar. Convenceu capitães intransigentes, electrizou exércitos desmoralizados, resistiu meses perante os teólogos.
Esta fé cega tem algo de aterrador. Não deixa espaço para a dúvida, para o matiz, para o questionamento. Pode levar ao fanatismo. Mas também pode conseguir o impossível.
Num mundo em que duvidamos de tudo, analisamos tudo, relativizamos tudo, Joana lembra-nos o poder da convicção. Não de qualquer convicção: de uma convicção enraizada em algo maior que nós próprios.
A sabedoria como caminho para a libertação
Buda mostra-nos outro caminho. Não a fé cega, mas a compreensão clara. Não a ação precipitada, mas a meditação paciente. Não a obediência a uma voz exterior, mas a escuta da própria natureza profunda.
A sua mensagem continua a ser surpreendentemente moderna. Num mundo de estímulos constantes, de desejos infinitos, de stress crónico, os ensinamentos de Buda sobre o desapego e a atenção encontram um novo eco.
Mas o caminho de Buda requer tempo, paciência e disciplina. Não promete milagres rápidos. Exige um trabalho interior a longo prazo.
Duas espiritualidades, uma só humanidade
Joana e Buda representam dois polos da experiência espiritual humana. Por um lado, a fé ardente que impulsiona à ação, que transforma o mundo exterior. Por outro, a sabedoria serena que transforma o mundo interior.
Talvez precisemos de ambas. Talvez a humanidade precise de figuras como Joana d’Arc para abalar a ordem estabelecida, e de figuras como Buda para nos lembrar que a verdadeira mudança começa em nós próprios.
Conclusão: o mistério da espiritualidade
O que faz com que uma adolescente analfabeta ouça vozes e mude a história de França? O que faz com que um príncipe indiano renuncie a tudo para meditar debaixo de uma árvore e funde uma religião mundial?
Não o sabemos realmente. Os psiquiatras modernos provavelmente diagnosticariam a Joana com esquizofrenia. Os neurocientistas explicariam a iluminação de Buda através de alterações na atividade cerebral. Mas estas explicações, embora verdadeiras, não explicam tudo.
Há algo na experiência espiritual que escapa à análise. Algo que impulsionou Joana a enfrentar a morte, e Buda a renunciar a tudo. Algo que continua a tocar milhões de pessoas séculos depois.
Talvez a verdadeira lição destas duas vidas extraordinárias seja que os seres humanos são capazes de mais do que acreditam. Que existem em nós recursos insuspeitos, ligações com algo maior. Que a espiritualidade, seja qual for a forma como se manifeste, é uma dimensão irredutível da experiência humana.
Joana ouviu vozes. Buda viu a natureza da realidade. Dois caminhos radicalmente diferentes para a mesma revelação: que a nossa vida ordinária não é tudo o que existe, e que cada um de nós, à sua maneira, pode tocar o extraordinário.
Para saber mais, consulte as nossas biografias de Joana d’Arc e Buda.