Jesus Cristo contra Buda: personalidades religiosas e o seu legado
Dois homens que mudaram o mundo através dos seus ensinamentos espirituais. Descubra o que une e o que diferencia Jesus e Buda, os fundadores das duas maiores religiões do mundo.
Jesus Cristo contra Buda: personalidades religiosas e o seu legado
Dois mil milhões de cristãos. Quinhentos milhões de budistas. Juntos, quase metade da humanidade segue um ou outro destes dois homens. Jesus de Nazaré e Siddhartha Gautama, conhecido como Buda, são talvez as pessoas mais influentes da história.
Nunca se encontraram: cinco séculos separam-nos. Viveram em mundos diferentes, falaram línguas diferentes, ensinaram coisas diferentes. E, no entanto, algo profundo os une: ambos propuseram um caminho de transformação, uma via para algo maior que a vida ordinária.
Comparar Jesus e Buda não significa enfrentá-los. Significa compreender o que nos seus ensinamentos tocou tão profundamente o coração humano. Significa também perguntarmos a nós próprios o que procuramos quando buscamos o sentido da vida.
Duas vidas, duas épocas
Buda: o príncipe que renunciou
Siddhartha Gautama nasceu por volta do ano 563 a.C. no clã dos Shakya, ao pé do Himalaia, no atual Nepal. O seu pai, Suddhodana, era o chefe do clã, não exatamente um rei, mas um homem poderoso. A sua mãe, Maya, morreu poucos dias depois do seu nascimento.
Uma lenda conta que um sábio profetizou, no nascimento de Siddhartha, que se tornaria num grande rei ou num grande sábio. O seu pai, que queria fazer dele um rei, encerrou-o no palácio e protegeu-o de todo o sofrimento. Siddhartha cresceu no luxo, casou-se com uma bela princesa, teve um filho.
Mas aos 29 anos abandonou o palácio e descobriu o que nunca tinha visto: um ancião, um doente, um cadáver. O sofrimento existia, então. Depois viu um monge errante, sereno apesar da sua pobreza. Naquela noite, Siddhartha abandonou o seu palácio, a sua esposa, o seu filho, e partiu em busca da verdade.
Durante seis anos experimentou tudo: mestres de meditação, ascetismo extremo, jejum. Nada funcionou. Finalmente, exausto, sentou-se debaixo de uma árvore e decidiu não se mover até encontrar a resposta. Naquela noite alcançou a iluminação. Tinha compreendido a natureza do sofrimento e o caminho para a libertação. Tornara-se Buda: «o Desperto».
Os 45 anos seguintes passou-os a ensinar, a percorrer a pé o norte da Índia, a fundar comunidades de monges e monjas. Morreu por volta do ano 483 a.C., aos 80 anos, rodeado dos seus discípulos.
Jesus: o carpinteiro de Nazaré
Jesus nasceu por volta do ano 4-6 a.C. (sim, antes da nossa era, um erro de cálculo da Idade Média) em Belém ou em Nazaré, na Galileia. A sua mãe, Maria, era uma jovem judia. O seu pai legal, José, era carpinteiro.
Quase nada sabemos dos seus primeiros trinta anos. Os Evangelhos mencionam um episódio no Templo aos 12 anos, e depois silêncio. Provavelmente aprendeu o ofício do seu pai, estudou as Escrituras na sinagoga, viveu a vida ordinária de um judeu galileu sob a ocupação romana.
Por volta dos 30 anos, tudo mudou. João Baptista pregava às margens do Jordão, anunciando a chegada do Reino de Deus. Jesus foi baptizado por ele. Segundo os Evangelhos, uma voz do céu declarou: «Este é o meu Filho amado».
Jesus iniciou então o seu ministério público. Percorreu a Galileia, pregou nas sinagogas e ao ar livre, curou os doentes, expulsou demónios, reuniu discípulos. A sua mensagem era simples e revolucionária: o Reino de Deus está perto. Amai-vos uns aos outros. Os últimos serão os primeiros.
O seu ministério durou talvez três anos, talvez menos. Terminou em Jerusalém, durante a festa da Páscoa, por volta do ano 30 d.C. Preso, acusado, condenado, Jesus foi crucificado pelos romanos. Três dias depois, segundo os seus discípulos, ressuscitou dos mortos.
Os seus ensinamentos: dois caminhos
Buda: as Quatro Nobres Verdades
O ensino de Buda pode resumir-se nas Quatro Nobres Verdades, que proclamou no seu primeiro sermão em Sarnath:
Primeira verdade: a vida é sofrimento (dukkha). Não apenas dor física, mas uma profunda insatisfação. Mesmo os prazeres são transitórios, e a sua perda faz-nos sofrer. Nascimento, velhice, doença, morte: tudo está marcado por dukkha.
Segunda verdade: o sofrimento tem uma causa. Esta causa é o desejo (tanha), o apego às coisas, às pessoas, a nós próprios. Sofremos porque queremos que as coisas sejam diferentes do que são.
Terceira verdade: o sofrimento pode cessar. Isso é o nirvana, literalmente a «extinção» do desejo. Nenhum paraíso, nenhum lugar, mas um estado de paz perfeita, de libertação total.
Quarta verdade: existe um caminho. É o Nobre Óctuplo Caminho: reta visão, reta intenção, reta palavra, reta ação, reta forma de vida, reto esforço, reta atenção, reta concentração.
Buda não falava de Deus. Não negava a existência dos deuses (os deuses hindus existiam na sua cosmologia), mas considerava-os irrelevantes para a questão essencial: como se libertar do sofrimento. «Só ensino uma coisa», dizia: «o sofrimento e o fim do sofrimento.»
Jesus: o Reino de Deus
O ensino de Jesus centra-se no Reino de Deus, em hebraico malkut shamayim. Não é um reino político, nem um território. É o senhorio de Deus sobre os corações, a transformação do mundo através do amor.
O amor está no centro. «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e amarás o teu próximo como a ti mesmo.» Estes dois mandamentos, diz Jesus, resumem toda a lei. E vai mais além: «Amai os vossos inimigos. Fazei bem aos que vos odeiam.»
A inversão dos valores. As Bem-aventuranças (Mateus 5) são um manifesto: «Bem-aventurados os pobres de espírito, bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os que choram, bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça…» São os excluídos, os marginalizados, os que sofrem, que são bem-aventurados. O Reino pertence aos pequenos.
Relação pessoal com Deus. Jesus chama a Deus «Abba», papá. É uma intimidade escandalosa para os seus contemporâneos. Deus não é um juiz distante, mas um pai que ama os seus filhos, que faz sair o seu sol sobre bons e maus.
Fé e graça. Para Jesus, não é o esforço humano que salva, mas a graça de Deus, que se recebe através da fé. «A tua fé te salvou», diz frequentemente aos doentes que cura. A salvação é uma dádiva, não uma conquista.
Os seus métodos: duas pedagogias
Buda: o médico da alma
Buda comparava-se a um médico. O sofrimento é uma doença, ele diagnostica a sua causa, propõe uma cura. A sua abordagem é empírica, quase científica: aqui está o problema, aqui está a solução, experimentem e verifiquem por vocês mesmos.
Adaptava o seu ensino a cada ouvinte. Para os intelectuais, oferecia análises subtis. Para o povo simples, histórias e parábolas. Recusava-se a responder a perguntas «inúteis» (Existe Deus? O universo é infinito?) porque não contribuíam para a libertação.
A meditação estava no centro do seu método. Observar a própria mente, ver como surgem e desaparecem os pensamentos, compreender a impermanência de todas as coisas. Esta prática, acessível a todos, era o caminho para a iluminação.
Buda não exigia fé. «Não creiam numa tradição só porque o seja. Não creiam em nada só porque muitos falem disso. Examinem, e creiam no que vocês mesmos tenham experimentado.» É um convite à verificação, não à submissão.
Jesus: o profeta do Reino
Jesus ensinava como um profeta judeu, mas com uma autoridade particular. «Ouvistes que foi dito aos antigos… Mas eu digo-vos…» Não se limitava a interpretar a lei, cumpria-a, transformava-a.
As suas parábolas são célebres: o bom samaritano, o filho pródigo, o semeador, a ovelha perdida. Estas histórias simples encerram verdades profundas. Não dão respostas feitas: convidam à reflexão, a reconhecer-se nos personagens.
Os milagres faziam parte do seu ministério: curas, exorcismos, ressurreições de mortos. Para os seus discípulos, estes sinais provavam a sua autoridade divina. Para os seus adversários, eram magia ou fraude. Jesus próprio parecia ambivalente: frequentemente pedia aos curados que guardassem o segredo.
Jesus exigia fé. «Crede somente», dizia. Esta fé não era uma adesão intelectual, mas uma confiança total, um abandono a Deus. «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, dirieis a este monte: Move-te, e ele mover-se-ia.»
As suas mortes: dois finais, dois significados
Buda: a entrada no parinirvana
Buda morreu aos 80 anos, de causas naturais (talvez uma intoxicação alimentar). A sua morte foi pacífica, coerente com o seu ensino sobre a impermanência.
Reuniu os seus discípulos e deu-lhes as suas últimas instruções: «Todas as coisas compostas são impermanentes. Trabalhem com diligência pela vossa libertação.» Depois entrou em meditação e atravessou diferentes estados de consciência até alcançar o parinirvana, a extinção completa, o fim do ciclo de renascimentos.
A sua morte não tinha valor redentor. Era simplesmente o final natural de uma vida bem vivida. Buda não tinha de morrer por nós, tinha de ensinar.
Jesus: a cruz e a ressurreição
Jesus morreu aos 33 anos aproximadamente, executado pelos romanos. A sua morte foi violenta, pública, degradante. A crucificação era o suplício reservado aos escravos e aos insurrectos.
E, no entanto, para os cristãos, esta morte não foi um fracasso: foi o coração da salvação. «O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate por muitos.» Jesus morreu pelos pecados da humanidade, reconciliando o homem com Deus.
E sobretudo, ressuscitou. Três dias depois da sua morte, o túmulo estava vazio. Apareceu aos seus discípulos, comeu com eles, falou com eles. Depois ascendeu ao céu, prometendo voltar.
A ressurreição é o fundamento do cristianismo. «Se Cristo não ressuscitou», escreve Paulo, «vã é então a nossa pregação, e vã é também a vossa fé.» Sem a ressurreição, Jesus é apenas um sábio entre outros. Com ela, é o Filho de Deus, vencedor da morte.
O seu legado: duas religiões mundiais
Budismo: da Índia ao mundo
O budismo espalhou-se primeiro pela Índia, depois por toda a Ásia. Adoptou formas muito diferentes:
O theravada («ensino dos antigos»), predominante no sudeste asiático (Sri Lanka, Tailândia, Birmânia), continua a ser o mais próximo do ensino original. O ideal é o arhat, o monge que alcança o nirvana através do seu próprio esforço.
O mahayana («grande veículo»), predominante na Ásia oriental (China, Japão, Coreia, Vietname), enfatiza a compaixão universal. O ideal é o bodhisattva, aquele que atrasa o seu próprio nirvana para ajudar todos os seres.
O vajrayana («veículo do diamante»), predominante no Tibete e na Mongólia, integra práticas tántricas e um sistema elaborado de mestres espirituais.
No Ocidente, o budismo ganhou popularidade crescente desde os anos 1960. A meditação de atenção plena (mindfulness), adaptada de técnicas budistas, é praticada por milhões de não budistas. O Dalai Lama é uma das figuras espirituais mais respeitadas do mundo.
Cristianismo: de Jerusalém a Roma e além
O cristianismo nasceu como uma seita judaica em Jerusalém. Em poucas décadas, graças sobretudo ao apóstolo Paulo, espalhou-se por todo o Império romano. No ano 313, Constantino legalizou-o. Em 380, tornou-se religião de Estado.
Desde então, o cristianismo dividiu-se em numerosas correntes:
A Igreja católica, dirigida pelo papa, é a mais numerosa (1.300 milhões de fiéis). Enfatiza a tradição, os sacramentos e a autoridade do magistério.
As Igrejas ortodoxas (300 milhões) separaram-se de Roma em 1054. Conservam as tradições da Igreja primitiva, a liturgia bizantina e a teologia dos padres da Igreja grega.
O protestantismo (900 milhões) nasceu da Reforma do século XVI. Enfatiza a Escritura só, a fé só, a graça só. Compreende milhares de denominações diferentes.
O cristianismo moldou o Ocidente: a sua arte, a sua música, a sua filosofia, as suas instituições. Continua a crescer em África, Ásia e América Latina, enquanto recua na Europa.
O que têm em comum
A compaixão
Buda e Jesus ensinam ambos a compaixão. Para Buda, karuna (a compaixão) é uma das quatro «moradas divinas», uma qualidade que se deve cultivar para com todos os seres. Para Jesus, o amor ao próximo é o segundo mandamento, inseparável do amor a Deus.
Ambos mostraram uma atenção particular para com os excluídos: os doentes, os pecadores, os marginalizados. Buda acolhia na sua comunidade pessoas de todas as castas. Jesus comia com cobradores de impostos e prostitutas.
O desapego
Ambos ensinam uma forma de desapego em relação aos bens materiais. Buda renunciou ao seu palácio para se tornar monge errante. Jesus diz: «Não acumuleis tesouros na terra… Porque onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.»
Este desapego não é um desprezo pelo mundo, mas uma liberdade. Quem não está apegado às coisas pode apreciá-las sem ser seu escravo.
A transformação interior
Nem Buda nem Jesus se contentam com regras exteriores. Ambos apontam para uma transformação profunda da pessoa. Para Buda, é a iluminação, a compreensão da verdadeira natureza da realidade. Para Jesus, é a conversão, o «nascer de novo», tornar-se numa nova criatura.
Esta transformação não está reservada a uma elite. Buda ensinava a todos, homens e mulheres, ricos e pobres. Jesus chamou pescadores e cobradores de impostos a segui-lo.
O que os diferencia
Deus
A diferença mais evidente concerne a Deus. Jesus põe Deus no centro: um Deus pessoal, criador, que ama as suas criaturas e quer a sua salvação. Buda não nega os deuses, mas são irrelevantes para a libertação. O budismo qualifica-se frequentemente como ateu ou agnóstico, embora estas categorias ocidentais não lhe façam inteiramente justiça.
A salvação
Para Jesus, a salvação vem de Deus. É graça, uma dádiva gratuita que se recebe através da fé. Não se pode salvar a si próprio: é preciso um salvador.
Para Buda, a libertação vem de si próprio. Buda mostra o caminho, mas cada um deve percorrê-lo por si mesmo. «Sejam a vossa própria lâmpada», diz aos seus discípulos antes de morrer. Ninguém pode libertar-nos em nosso lugar.
A morte
A morte de Jesus é redentora. Tem um significado cósmico: apaga os pecados da humanidade, reconcilia o homem com Deus. E segue-se a ressurreição, que prova a vitória sobre a morte.
A morte de Buda é simplesmente o fim de uma vida. Ilustra a impermanência de todas as coisas. Não tem valor redentor: é o seu ensino que salva, não a sua morte.
Conclusão: duas luzes, uma só humanidade
Jesus e Buda tocaram algo profundo na alma humana. Responderam a perguntas que todos nos fazemos: por que sofremos? Como se vive uma boa vida? Há algo para além desta vida?
As suas respostas são diferentes. Buda propõe um caminho de sabedoria e meditação, a libertação através da compreensão. Jesus propõe um caminho de fé e amor, a salvação através da graça.
Talvez não precisemos de escolher entre ambos. Talvez possamos aprender com os dois: de Buda, a atenção ao presente, o desapego sereno, a compaixão universal; de Jesus, o amor incondicional, a esperança, a confiança num Deus que nos ama.
O certo é que estes dois homens mudaram o mundo. Dois mil e quinhentos milhões de pessoas seguem ainda os seus ensinamentos, dois mil e quinhentos anos depois da sua passagem pela terra. Muito poucas pessoas podem dizer o mesmo.
E talvez este seja o ponto essencial: não quem tinha razão, mas o que nos inspira o seu exemplo. Uma vida de compaixão, de sabedoria, de amor. Uma vida que busca algo maior que nós próprios. Uma vida que, de uma forma ou de outra, toca o eterno.
Para saber mais, consulte as nossas biografias de Jesus Cristo e Buda.