Escritores empenhados: de Voltaire a Simone de Beauvoir
Descubra as penas que mudaram o mundo. De Voltaire, que defendeu Calas, a Simone de Beauvoir, que libertou as mulheres, estes escritores arriscaram a sua liberdade, a sua reputação, por vezes a própria vida, para defender as suas ideias e transformar a sociedade.
Escritores empenhados: de Voltaire a Simone de Beauvoir
«A pena é mais poderosa que a espada», diz-se. Mas será verdade? As palavras podem realmente mudar o mundo? A história responde: sim, por vezes. Quando um escritor põe a sua reputação, a sua liberdade, por vezes a própria vida, ao serviço de uma causa, as suas palavras podem tornar-se armas formidáveis.
O empenho literário não é uma novidade. Desde a Antiguidade, os autores utilizaram a sua arte para criticar o poder, defender os oprimidos, propor alternativas. Mas é a partir da Ilustração que este empenho adquire uma nova dimensão: o escritor torna-se intelectual, defensor de direitos, ator político.
De Voltaire, que defendeu Calas contra a injustiça judicial, a Simone de Beauvoir, que libertou as mulheres do papel que lhes era atribuído, estes escritores demonstraram que a literatura não é apenas arte, mas também um meio de ação. As suas lutas transformaram leis, mentalidades, a própria sociedade.
Mas o empenho tem o seu preço. Voltaire foi desterrado, encarcerado. Zola teve de fugir para a Inglaterra. Orwell foi vigiado pela polícia. Alguns pagaram com a vida. Porque assumiram estes riscos? Por convicção, por sentido do dever, pela ideia de que o escritor tem uma responsabilidade perante a sociedade.
A sua história é a de uma luta constante: contra a injustiça, a opressão, o silêncio. É também a história dos seus limites, dos seus fracassos, das suas contradições. Porque os escritores empenhados são seres humanos, com as suas fraquezas, os seus erros, as suas dúvidas.
A Ilustração: o escritor como intelectual
Voltaire (1694–1778): o combatente pela tolerância
Voltaire era um homem de contradições. Rico graças à especulação financeira, criticava o dinheiro. Cortesão de reis, denunciava o despotismo. Cínico e zombeteiro, lutava com paixão sincera pela justiça.
O seu empenho surgiu de um caso judicial: o caso Calas. Em 1762, Jean Calas, um protestante de Toulouse, foi acusado de ter matado o filho, que queria converter-se ao catolicismo. Condenado sem provas, foi executado na roda. Voltaire, escandalizado com esta injustiça, lançou uma campanha de vários anos para rehabilitar a sua memória.
Escreveu dezenas de cartas, panfletos, o «Tratado sobre a tolerância». Mobilizou a opinião pública, exerceu pressão sobre as autoridades. Em 1765, Calas foi rehabilitado postumamente. Foi uma vitória histórica: pela primeira vez, um escritor tinha usado a sua notoriedade para fazer triunfar a justiça.
Voltaire também defendeu outros casos: Sirven, La Barre, Lally-Tollendal. Cada vez mobilizava as suas redes, escrevia, lutava. «Esmagai o infame», repetia: o infame era a intolerância religiosa, o fanatismo, a injustiça.
Mas Voltaire era também um oportunista. Adulava os poderosos quando convinha aos seus interesses. Era antissemita, desprezava o povo. O seu empenho tinha limites. No entanto, tinha aberto um caminho: o do intelectual empenhado, o defensor dos direitos humanos.
Rousseau (1712–1778): o sonhador revolucionário
Jean-Jacques Rousseau era o anti-Voltaire. Onde Voltaire era mundano, cínico, irónico, Rousseau era solitário, apaixonado, sincero. Onde Voltaire defendia casos concretos, Rousseau sonhava com transformar a sociedade.
«O Contrato Social» (1762) foi um livro revolucionário. Rousseau afirmava que a soberania pertence ao povo, que os governantes são apenas delegados revogáveis. Esta ideia — de que o poder vem de baixo, não de cima — inspiraria a Revolução Francesa.
«Emílio» (1762) revolucionou a pedagogia. Rousseau defendia a educação natural, o respeito pela criança, a aprendizagem através da experiência. Estas ideias, consideradas subversivas na sua época, são hoje evidentes.
Mas Rousseau era também um homem atormentado. Brigou com quase todos os seus amigos: Diderot, Voltaire, Hume. Entregou os seus cinco filhos à inclusa. Era paranoico, acreditava que era perseguido. O seu empenho era sincero, mas a sua vida pessoal foi um fracasso.
Rousseau morreu em 1778, poucos meses antes de Voltaire. Os dois inimigos repousam hoje frente a frente no Panteão. As suas ideias — a tolerância para Voltaire, a democracia para Rousseau — transformaram o mundo.
O século XIX: o escritor social
Victor Hugo (1802–1885): a voz dos desamparados
Victor Hugo foi o maior escritor francês do século XIX. Mas foi também político, defensor dos oprimidos, uma consciência nacional. O seu empenho cresceu com a idade e atingiu o ponto máximo durante o exílio.
Em 1851, Napoleão III organizou um golpe de Estado. Hugo, deputado republicano, tentou resistir. Teve de fugir para a Bélgica, depois para Guernsey. Durante dezanove anos de exílio continuou a escrever, denunciando o Segundo Império, defendendo a República.
«Os Miseráveis» (1862) foi a sua obra-prima empenhada. Através da história de Jean Valjean, Fantine e Cosette, denunciava a miséria, a injustiça social, a opressão. O livro provocou um escândalo, mas também uma sensação. Vendeu-se por milhões de exemplares, foi traduzido para todas as línguas.
Hugo defendeu também outras causas: a abolição da pena de morte, a educação para todos, os direitos das mulheres. Era humanista, acreditava no progresso, na perfectibilidade do ser humano. «Odeio a opressão», escreveu.
Quando regressou a França em 1870, foi recebido como um herói. Manteve-se na Assembleia Nacional, defendendo as suas ideias. Morreu em 1885, e milhões de pessoas seguiram o seu cortejo fúnebre. Foi o reconhecimento de uma vida de empenho.
Émile Zola (1840–1902): J’accuse
Émile Zola era um romancista naturalista, um observador implacável da sociedade. Mas também se tornou defensor de um homem injustamente condenado: o capitão Dreyfus.
Em 1894, Dreyfus, um oficial judeu, foi acusado de espionagem e condenado à deportação. Zola, convencido da sua inocência, lançou uma campanha de vários anos. Escreveu artigos, mobilizou a opinião pública, denunciou o antissemitismo do exército e da justiça.
A 13 de janeiro de 1898, publicou no «L’Aurore» uma carta aberta ao Presidente da República: «J’accuse». Nomeou os responsáveis pela injustiça e acusou-os de mentira, de cumplicidade. Foi um ato de coragem excecional.
Zola foi condenado por difamação e teve de fugir para a Inglaterra. Mas o caso foi reaberto. Dreyfus foi finalmente rehabilitado em 1906. Zola tinha triunfado, mas tinha morrido quatro anos antes, asfixiado pelos gases da sua própria chaminé, talvez assassinado por nacionalistas.
«J’accuse» continua a ser o modelo do artigo empenhado. Curto, preciso, corajoso, mostra como um escritor pode usar a sua notoriedade para defender a justiça. Zola tinha demonstrado que o empenho literário podia mudar o curso da história.
O século XX: o escritor resistente
George Orwell (1903–1950): o defensor da verdade
George Orwell foi um escritor inglês que combateu o totalitarismo com as suas palavras. Empenhado na Guerra Civil Espanhola, descobriu a manipulação, a mentira, a traição. Esta experiência marcou-o para sempre.
«1984» (1949) é a sua obra-prima. Nesta novela distópica descreve um mundo onde a verdade já não existe, onde a linguagem é manipulada, onde o pensamento é controlado. «O Grande Irmão vê-te» tornou-se numa expressão universal para denunciar a vigilância.
«A Quinta dos Animais» (1945) é uma fábula política. Através da história de animais que se rebelam contra o seu dono, Orwell denuncia a corrupção do poder, a traição dos ideais revolucionários. «Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros»: esta frase resume a sua crítica do stalinismo.
Orwell era socialista, mas crítico. Denunciava tanto o capitalismo como o comunismo soviético. Acreditava na verdade, na liberdade de pensamento, no direito à crítica. «Numa época de engano universal, dizer a verdade é um ato revolucionário», escreveu.
Orwell morreu em 1950, aos 46 anos, de tuberculose. Não viu o impacto dos seus livros. Mas «1984» e «A Quinta dos Animais» tornaram-se clássicos, lidos por milhões, citados em todos os debates políticos. Orwell tinha criado uma linguagem para pensar o totalitarismo.
Simone de Beauvoir (1908–1986): a libertação das mulheres
Simone de Beauvoir era filósofa, romancista, intelectual empenhada. Mas é sobretudo conhecida por «O Segundo Sexo» (1949), um livro que revolucionou a condição da mulher.
«Não se nasce mulher, torna-se mulher»: esta célebre frase resume a sua tese. A feminilidade não é natural, mas construída pela sociedade. As mulheres não estão oprimidas pela sua natureza, mas pelos papéis que lhes são atribuídos.
O livro provocou um escândalo. Beauvoir foi chamada «ninfómana», «frígida», «lésbica». O Vaticano colocou o livro no Índice. Mas as mulheres leram-no, reconheceram-se nele, libertaram-se. «O Segundo Sexo» tornou-se na bíblia do feminismo.
Beauvoir empenhou-se também noutras causas: a independência da Argélia, o direito ao aborto, os direitos dos homossexuais. Assinou em 1971 o «Manifesto das 343», declarando ter abortado, um ato corajoso para a época.
Com Jean-Paul Sartre formou um casal lendário. Nunca se casaram, nunca viveram juntos, mas partilhavam tudo: as suas ideias, as suas lutas, a sua vida. Esta relação livre e igualitária foi em si mesma um empenho.
Beauvoir morreu em 1986. Tinha visto as mulheres obter o direito de voto, o direito ao aborto, o acesso à educação e ao trabalho. Tinha contribuído para esta revolução. «O Segundo Sexo» continua a ser um livro fundamental, lido e discutido em todo o mundo.
Formas de empenho
O artigo e o panfleto
O artigo empenhado é uma arma formidável. Curto, incisivo, pode mobilizar a opinião pública em questão de horas. «J’accuse» de Zola mudou o curso do caso Dreyfus. Os artigos de Voltaire faziam tremer os poderosos. Os editoriais de Orwell denunciavam o totalitarismo.
O panfleto é ainda mais agressivo. Voltaire escreveu dezenas, ridicularizando os seus inimigos, denunciando a injustiça. É uma forma literária por direito próprio, que requer talento, coragem, humor.
Mas artigos e panfletos têm os seus limites. São efémeros, esquecem-se rapidamente. Apenas os maiores sobrevivem. E também podem ser perigosos: Zola foi condenado, Voltaire desterrado.
O romance empenhado
O romance empenhado é mais subtil. Não denuncia diretamente, mas conta uma história que ilustra uma causa. «Os Miseráveis» de Hugo denuncia a miséria através da história de Jean Valjean. «1984» de Orwell denuncia o totalitarismo através da história de Winston Smith.
O romance tem a vantagem de chegar a um público amplo, de gerar emoções, de deixar marca nas mentes. Mas também pode ser instrumentalizado, reduzido a uma mensagem política. Os melhores romances empenhados são aqueles que transcendem a sua mensagem e continuam a ser obras literárias.
O ensaio filosófico
O ensaio filosófico é a forma mais intelectual de empenho. «O Contrato Social» de Rousseau, «O Segundo Sexo» de Beauvoir são ensaios que mudaram o pensamento. Não contam uma história, mas desenvolvem uma argumentação, propõem uma visão do mundo.
O ensaio tem a vantagem do rigor, da profundidade. Mas também pode ser abstracto, pouco acessível. Os melhores ensaios empenhados são aqueles que combinam rigor intelectual com clareza de linguagem.
Os limites do empenho
O oportunismo
O empenho pode ser sincero, mas também oportunista. Alguns escritores empenham-se para se tornarem conhecidos, vender livros, adularem o poder. Voltaire adulava os reis quando convinha aos seus interesses. Alguns intelectuais contemporâneos mudam de lado conforme a moda.
Como distinguir o empenho sincero do oportunismo? Pela coerência, pela perseverança, pelo preço pago. Zola arriscou a sua liberdade por Dreyfus. Beauvoir foi atacada por «O Segundo Sexo». O verdadeiro empenho custa.
A ineficácia
O empenho literário nem sempre é eficaz. Voltaire defendeu Calas, mas quantos outros inocentes foram condenados? Zola conseguiu a rehabilitação de Dreyfus, mas o antissemitismo persistiu. Orwell denunciou o totalitarismo, mas os regimes totalitários subsistiram.
O escritor empenhado pode mudar mentalidades, mas raramente estruturas. Pode influenciar a opinião pública, mas nem sempre quem toma as decisões. O seu impacto é muitas vezes indirecto, diferido, difícil de medir.
As contradições
Os escritores empenhados são seres humanos, com as suas próprias contradições. Voltaire defendia a tolerância, mas era antissemita. Rousseau sonhava com a democracia, mas abandonou os filhos. Orwell denunciava a vigilância, mas denunciou comunistas aos serviços secretos.
Estas contradições não desacreditam o seu empenho, mas relativizam-no. O escritor empenhado não é um santo, mas um ser humano que luta pelas suas ideias, com as suas forças e as suas fraquezas.
Conclusão: a pena e a espada
«A pena é mais poderosa que a espada»: esta fórmula pode ser exagerada. Mas contém uma verdade: as palavras podem mudar o mundo, desde que sejam sustentadas por escritores corajosos, sinceros, decididos.
De Voltaire a Simone de Beauvoir, estes escritores demonstraram que a literatura não é apenas arte, mas também um meio de ação. As suas lutas transformaram leis, mentalidades, sociedades. Os seus livros continuam a inspirar, mobilizar, transformar.
Mas o empenho tem um preço. Requer coragem, perseverança, por vezes sacrifício. Pode ser ineficaz, contraditório, instrumentalizado. No entanto, continua a ser necessário. Num mundo onde persistem a injustiça, a opressão, a mentira, o escritor empenhado tem um papel a desempenhar.
O empenho literário não está morto. Ainda hoje, os escritores lutam por causas: os direitos humanos, o ambiente, a justiça social. Utilizam novos meios — blogs, redes sociais, podcasts —, mas o princípio continua a ser o mesmo: usar as palavras para mudar o mundo.
A história dos escritores empenhados ensina-nos que a literatura pode ser uma arma, que as palavras podem ser actos, que o escritor pode ser um actor da história. É um legado valioso, que há que preservar, transmitir, manter vivo.
Porque num mundo onde a verdade está ameaçada, onde persiste a injustiça, onde se violam os direitos, precisamos de escritores empenhados. Escritores que se atrevam a dizer não, que se atrevam a denunciar, que se atrevam a propor. Escritores que, como Voltaire, Zola, Orwell, Beauvoir, usem a sua pena para defender a justiça, a liberdade, a verdade.
A pena talvez não seja mais poderosa que a espada. Mas pode ser mais duradoura. Os livros de Voltaire, Zola, Orwell, Beauvoir continuam a ser lidos, discutidos, citados. As suas palavras sobrevivem, as suas ideias persistem, o seu empenho inspira. Talvez seja isto, afinal, o verdadeiro poder da escrita empenhada.
Para saber mais, consulte as nossas biografias de Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, Victor Hugo e Simone de Beauvoir.