Confúcio contra Sócrates: filósofos que fundaram civilizações
Dois sábios, dois continentes, uma mesma época. Descobre como Confúcio e Sócrates moldaram o pensamento de milhares de milhões de pessoas e por que as suas perguntas continuam a ressoar hoje.
Confúcio contra Sócrates: filósofos que fundaram civilizações
Há aproximadamente 2.500 anos, ao longo de poucas décadas, dois homens colocaram as perguntas fundamentais que viriam a marcar civilizações inteiras. Um percorria as ruas de Atenas, atormentando os seus concidadãos com perguntas incómodas. O outro viajava de corte em corte na China da época dos Reinos Combatentes, à procura de um príncipe que ouvisse os seus conselhos.
Confúcio (551–479 a.C.) e Sócrates nunca se conheceram. Nem sequer sabiam da existência um do outro. E, contudo, colocaram as mesmas perguntas: como devemos viver? O que é uma sociedade justa? O que torna bom um ser humano?
As suas respostas foram diferentes, por vezes radicalmente diferentes. Mas as suas perguntas são universais. E talvez por isso, 25 séculos depois, continuamos a ler as suas palavras e a colocar-nos com eles as mesmas questões.
Duas vidas, dois mundos
Confúcio: o mestre errante
Kong Qiu — assim se chamava na realidade; «Confúcio» é a latinização de «Kong Fuzi» (Mestre Kong) — nasceu no ano 551 a.C. no estado de Lu, na atual província de Shandong. O seu pai era um velho guerreiro, a sua mãe uma jovem concubina. Perdeu o pai aos três anos e cresceu na pobreza.
A China do seu tempo era um caos. A outrora poderosa dinastia Zhou já não passava de uma ficção. Os «Reinos Combatentes» travavam guerras intermináveis. Os antigos rituais estavam esquecidos, as hierarquias abaladas, a violência era omnipresente. Para Confúcio, isto era tanto uma catástrofe moral como política.
Jovem, trabalhou como guardião de celeiros, depois como contabilista. Estudou com paixão os textos antigos, os rituais e a música. Tornou-se gradualmente num erudito respeitado, um especialista em tradições perdidas. Alguns discípulos começaram a segui-lo.
Aos 50 anos obteve finalmente um cargo oficial no seu estado natal, Lu. Mas a sua carreira política foi breve e dececionante. Os seus conselhos não agradavam aos poderosos. Aos 55 anos deixou Lu e iniciou uma peregrinação de 13 anos, viajando de reino em reino, à procura de um governante que aplicasse as suas ideias. Nunca o encontrou.
Aos 68 anos regressou a Lu, velho e desanimado. Dedicou os seus últimos anos a ensinar e a rever os clássicos. Morreu no ano 479 a.C., convencido de ter fracassado. Enganava-se: as suas ideias viriam a governar a China durante dois milénios.
Sócrates: o incómodo de Atenas
Sócrates nasceu por volta do ano 470 a.C. em Atenas, filho de um escultor e de uma parteira. Recebeu a educação habitual de um cidadão ateniense: leitura, escrita, música, ginástica. Serviu como hoplita (soldado de infantaria) em várias batalhas e destacou-se pela sua bravura física.
Mas o que realmente o distinguia era a sua estranheza. Não era atraente: nariz achatado, olhos salientes, corpo rechonchudo. Caminhava descalço, no verão e no inverno. Não trabalhava e vivia na pobreza voluntária. E, sobretudo, passava os dias a falar.
Falava com todos: artesãos, políticos, sofistas, jovens de boa família. Fazia-lhes perguntas. Perguntas aparentemente simples: o que é a justiça? O que é a coragem? O que é a beleza? Mas os seus interlocutores, convencidos de que sabiam, descobriam rapidamente que não sabiam nada.
Sócrates comparava-se a um «tavão» que picava Atenas para a despertar. Muitos consideravam isto insuportável. No ano 399 a.C. foi acusado de corromper a juventude e de não crer nos deuses da cidade. Condenado à morte, recusou-se a fugir e bebeu a cicuta. Tinha 70 anos.
Os seus métodos: duas formas de filosofar
Confúcio: ensinar com o exemplo
Confúcio não filosofava como os gregos. Não construía sistemas abstractos, não tentava demonstrar verdades através da lógica. O seu método era diferente: transmitia uma tradição.
Para Confúcio, a sabedoria não havia de ser inventada: já existia, nos textos antigos, nos rituais herdados, no exemplo dos sábios do passado. O seu papel era preservar esta sabedoria, transmiti-la, mostrar a sua aplicação.
Os seus ensinamentos tomavam a forma de aforismos, diálogos breves, anedotas. «O Mestre disse…» — assim começam a maioria dos passagens das Analectas (Lunyu), a colecção dos seus ditos compilada pelos seus discípulos.
Estes ditos são frequentemente enigmáticos, abertos à interpretação. «Estuda como se nunca fosses alcançar o teu objectivo, como se temesses perdê-lo.» «O que não quiseres que te façam, não o faças aos outros.» «O homem nobre está tranquilo e sereno; o homem pequeno está sempre ansioso.»
Confúcio também ensinava com o exemplo. Vivia o que pregava: piedade filial, respeito pelos rituais, moderação, estudo constante. Os seus discípulos observavam-no, imitavam-no, aprendiam por imitação.
Sócrates: a maiêutica
Sócrates tinha um método completamente diferente, que chamava «maiêutica»: a arte de assistir ao parto das ideias. Assim como a sua mãe ajudava as mulheres a dar à luz os seus filhos, ele ajudava as almas a dar à luz as verdades.
A sua técnica era o diálogo. Fazia perguntas, ouvia as respostas e depois formulava mais perguntas que revelavam contradições. Passo a passo, levava o seu interlocutor a reconhecer a sua própria ignorância, e este era o começo da sabedoria.
«Só sei uma coisa: que não sei nada.» Esta célebre frase resume a sua abordagem. Sócrates não afirmava possuir a verdade. Apenas afirmava ser melhor do que os outros em reconhecer a sua própria ignorância.
Este método era subversivo. Não respeitava nem os especialistas nem as tradições. Questionava tudo, inclusive as certezas mais profundamente enraizadas. Dava aos jovens ferramentas para desafiar os seus superiores. É fácil compreender por que acabou por irritar as autoridades atenienses.
As suas ideias: duas visões da humanidade
Confúcio: a harmonia social
Para Confúcio, o ser humano é fundamentalmente um ser social. Nascemos em relações — como filho ou filha, como irmão ou irmã — e estas relações definem-nos. A pergunta não é «quem sou eu?», mas «qual é o meu lugar na ordem social?».
Cinco relações estruturam a sociedade confuciana: governante-súdito, pais-filho, marido-mulher, mais velho-mais novo, amigo-amigo. Cada relação implica deveres recíprocos. O pai deve ser benevolente, o filho piedoso. O governante deve ser justo, o súdito leal. A harmonia surge quando cada um cumpre o seu papel.
O conceito-chave é «ren» (仁), frequentemente traduzido como «humanidade» ou «benevolência». É a virtude suprema, que engloba todas as outras. Quem possui ren trata os outros com compaixão, age com justiça, respeita os rituais.
Mas o ren não é inato: deve ser cultivado. Através do estudo dos clássicos, da prática dos rituais, da imitação dos sábios. Confúcio acreditava que qualquer pessoa podia tornar-se num «junzi» (pessoa virtuosa, cavaleiro), mas isto exigia um esforço constante, toda uma vida de autocultivo.
A política era, para Confúcio, uma extensão da moral. Um bom governo não era o que tinha as melhores leis ou o maior exército, mas aquele cujo governante era virtuoso. «Governar é endireitar.» Se o governante era recto, também o seriam os seus súditos.
Sócrates: conhece-te a ti mesmo
Para Sócrates, a pergunta fundamental não era social, mas individual: «Conhece-te a ti mesmo.» Esta inscrição do templo de Delfos era o seu lema. Antes de saber como viver com os outros, é preciso saber quem se é.
Sócrates acreditava que a virtude era uma forma de conhecimento. Ninguém faz o mal voluntariamente: quem faz o mal faz-no por ignorância. Se soubéssemos verdadeiramente o que é bom, não poderíamos fazer outra coisa senão fazê-lo. A educação moral é, portanto, educação intelectual: compreender o bem significa tornar-se bom.
Esta ideia pode parecer ingénua. Não fazemos frequentemente o mal mesmo sabendo que está mal? Sócrates diria que não: se o fazemos, é porque não compreendemos realmente por que está mal. O nosso conhecimento é superficial, não profundo.
A alma era para Sócrates mais importante do que o corpo. O que conta não é a riqueza, a saúde ou a reputação, mas o estado da nossa alma. Uma alma virtuosa vale mais do que todos os tesouros do mundo. Por isso, segundo a sua convicção, é melhor sofrer a injustiça do que cometê-la: cometer uma injustiça corrompe a nossa alma.
A política interessava menos a Sócrates do que a Confúcio. Vivia numa democracia (Atenas), não numa monarquia. Mas era céptico em relação à democracia: como poderiam os seres humanos governar uma cidade se não se conhecem a si mesmos? Preferia uma aristocracia do conhecimento, em que governassem os filósofos — uma ideia que o seu discípulo Platão desenvolveria na República.
Os seus estilos: o sábio contra o incómodo
Confúcio: a dignidade do mestre
Confúcio era um homem de dignidade, de moderação, de ritual. Concedia grande importância às formas: como vestir, como cumprimentar, como comer. Estes pormenores não eram superficiais para ele: expressavam uma atitude interior.
As Analectas mostram-no atento aos matizes. Adaptava o seu ensino a cada discípulo. Elogiava raramente, criticava frequentemente, mas com moderação. Era exigente, mas nunca cruel.
Em Confúcio há uma melancolia. Sabia que as suas ideias não se aplicavam, que o mundo ia mal, que os antigos ritos se perdiam. Mas continuava a ensinar, a transmitir, a ter esperança. «Se alguém me compreendesse, seria o Céu», disse uma vez.
A sua relação com os deuses era ambivalente. Respeitava os rituais religiosos, mas evitava falar dos espíritos. «Respeita os espíritos, mas mantém-nos à distância.» Não negava a sua existência, mas concentrava-se nos assuntos humanos. «Ainda não sabes servir os homens, como poderias servir os espíritos?»
Sócrates: a ironia do interrogador
Sócrates era o contrário: provocador, irónico, evasivo. Afirmava não saber nada, mas esta ignorância era uma arma. Permitia-lhe interrogar sem ser interrogado, criticar sem se expor.
A sua ironia é famosa. Fingia admiração pelos seus interlocutores, elogiava a sua suposta sabedoria, para depois desmontar as suas certezas pergunta após pergunta. Este método era eficaz, mas doloroso. Muitas das suas vítimas o detestavam.
Também tinha sentido de humor. Quando lhe disseram que o oráculo de Delfos o tinha declarado o mais sábio de todos os homens, respondeu que era porque ele era o único que sabia que não sabia nada. Quando lhe perguntaram se era melhor casar ou ficar solteiro, respondeu: «O que fizeres, vais lamentar-te.»
A sua relação com os deuses era complexa. Acreditava ter um «daimon» interior, uma voz divina que o advertia quando estava prestes a cometer um erro. Mas foi acusado de não crer nos deuses da cidade. Na realidade, talvez acreditasse em algo mais abstracto, mais filosófico do que os deuses tradicionais.
O seu legado: duas civilizações
Confúcio: a alma da China
O legado de Confúcio é imenso. Durante mais de dois mil anos, o confucionismo foi a ideologia oficial da China imperial. Os exames imperiais, que seleccionavam os funcionários, verificavam o domínio dos clássicos confucianos. Toda a pessoa culta na China conhecia as Analectas de memória.
Mas o confucionismo não se limitou à China. Marcou a Coreia, o Vietname, o Japão. Toda a Ásia oriental traz a sua marca: respeito pelos mais velhos, importância da educação, valorização da harmonia social.
Hoje, o pensamento confuciano continua vivo. Os «Institutos Confúcio» promovem a cultura chinesa em todo o mundo. Os debates sobre os «valores asiáticos» recolhem as suas ideias. Na própria China, Confúcio está a ser rehabilitado após décadas de denegação sob Mao.
Mas o seu legado também é questionado. Feministas e democratas criticam a hierarquia confuciana, o seu patriarcalismo, o seu respeito pela autoridade. Pode o confucionismo ser compatível com a modernidade? O debate continua.
Sócrates: o pai da filosofia ocidental
Sócrates não escreveu nada. Tudo o que sabemos dele provém dos seus discípulos: Platão, Xenofonte, Aristófanes. Mas através deles, a sua influência é imensa.
Platão fez de Sócrates a personagem principal de quase todos os seus diálogos. A filosofia platónica — o mundo das ideias, a imortalidade da alma, o filósofo-rei — surgiu das perguntas socráticas. E Aristóteles, discípulo de Platão, transmitiu este legado a toda a Europa medieval.
O método socrático sobrevive nas nossas universidades. O diálogo, o interrogatório, o exame crítico das ideias: essa é a essência da filosofia ocidental. Quando um professor coloca uma pergunta em vez de dar uma resposta, está a praticar a sócratica.
O seu exemplo também persiste. O filósofo que morre pelas suas ideias, que se recusa a comprometer a sua consciência, que prefere a morte à fuga: é um modelo que outros mártires, desde Jesus até Tomás Morus, encarnaram depois dele.
O que nos ensinam hoje
Oriente e Ocidente
Confúcio e Sócrates encarnam duas visões da sabedoria, duas tradições de pensamento que marcaram milhares de milhões de pessoas. Compará-los significa compreender algo sobre as diferenças entre Oriente e Ocidente.
Confúcio enfatiza as relações, a harmonia, a tradição. O indivíduo só existe dentro da sua rede social. A sabedoria consiste em encontrar o seu lugar e ocupá-lo com excelência.
Sócrates enfatiza o indivíduo, a razão, o interrogatório. Cada um deve procurar a verdade por si próprio. A tradição só tem autoridade se resistir ao exame crítico.
Estas duas visões não são incompatíveis. Talvez precisemos de ambas: a coesão social que defende Confúcio, e a liberdade intelectual que defende Sócrates. Raízes e asas, como diz o provérbio.
Perguntas eternas
Mas para além das diferenças, é a semelhança das perguntas que impressiona. Como se vive uma boa vida? O que é a virtude? Como se educa a juventude? Como se governa uma sociedade?
Estas perguntas não têm respostas definitivas. Cada geração deve retomá-las, reformulá-las, enfrentá-las de novo. Por isso Confúcio e Sócrates continuam actuais: não porque tenham encontrado as respostas, mas porque colocaram as perguntas certas.
Talvez isto seja a sabedoria: não um conhecimento fixo, mas uma capacidade de perguntar, de duvidar, de procurar. Confúcio e Sócrates convidam-nos, cada um à sua maneira, a esta busca. Não nos dizem o que pensar, ensinam-nos a pensar.
Conclusão: dois sábios, uma humanidade
Há 2.500 anos, dois homens, sem se conhecerem, lançaram as bases de duas grandes civilizações. As suas respostas foram diferentes, os seus métodos opostos, os seus mundos separados por milhares de quilómetros.
E, contudo, procuravam o mesmo: compreender o que significa ser humano. Viver com os outros. Distinguir o bem do mal. Ser melhores.
Confúcio ensina-nos que somos seres de relação, que a nossa humanidade se realiza nos nossos laços com os outros, que a tradição possui uma sabedoria que faríamos bem em ouvir.
Sócrates ensina-nos que devemos pensar por nós próprios, que a verdade não se transmite mas se descobre, que o exame de si mesmo é o começo de toda a sabedoria.
Juntos lembram-nos que a filosofia não é um luxo abstracto, mas uma necessidade vital. Num mundo que muda tão depressa, onde as certezas se desmoronam, onde as tradições se perdem, as suas perguntas são mais urgentes do que nunca.
Quem sou eu? Como devo viver? O que é uma sociedade justa?
Estas perguntas não têm idade. Atravessam séculos, culturas, continentes. E cada vez que as colocamos, unimo-nos a Confúcio e a Sócrates na sua busca: a busca eterna da sabedoria humana.
Para saber mais, consulta as nossas biografias detalhadas de Confúcio e Sócrates.